Lama
13

A lama que transformou gente em número

Quando estive em Mariana pela primeira vez após a tragédia do rompimento da barragem da mineradora Samarco, controlada pela Vale e a australiana BHP Billiton, presenciei a desolação de gente que havia perdido tudo pelo mar de lama que arrastou e destruiu o que havia pela frente. Eu estava a cerca de 60km de Bento Rodrigues e não fazia ideia, na ocasião, das perdas do povo de lá. Mortos e desaparecidos eram um fato cada vez mais crescente: os números eram sempre corrigidos. O que me incomodava, além das perdas noticiadas, era exatamente isso: eram números e não nomes.

Embora listagens haviam sido publicadas em alguns veículos, a impressão que eu tinha é que a importância dada às pessoas que morreram ou estavam – algumas ainda estão – desaparecidas era menor que os bens materiais. Algo que constatei quando resolvi, por conta própria, dar nomes e rostos a “alguns números”.

A cada pessoa que eu ligava ou abordava pessoalmente procurando informações sobre o paradeiro dos familiares dessas vítimas, a conversa sempre acabava com a frase: “mas aqui tem um monte de gente que perdeu tudo que tinha, mas morte não tem não.”

Quando um amigo, que viajou comigo para Mariana, ligou para o Secretário Adjunto de Defesa Social da cidade, João Paulo Felipe, para perguntar sobre o paradeiro dos familiares e, também, sobre as vítimas, a resposta: números. Ele também disse que talvez a Defesa Civil poderia nos ajudar a conseguir o que procurávamos. Mas não foi preciso, fui direto aos hotéis e ali, a solidariedade dos moradores de Bento Rodrigues citava nomes.

Com um bom tempo de coversa por ali, descobri o paradeiro dos parentes da  Emanuelly Vitória, de apenas 5 anos, que amava ir a escola e assistir “O rei Leão”.  Do Ailton Martins dos Santos, 55 anos, eternizado nas lembranças do filho como um grande pai. Da Maria Eliza Lucas, 60 anos, uma senhora guerreira que enfrentou diversas doenças na vida e que, segundo o filho, “estava vivendo os melhores dias da saúde dela”. E do Daniel Altamiro de Carvalho, 53 anos, um pai e esposo dedicado, que fazia de tudo pra cuidar da família.

 Pelas ruas de Mariana, Bento Rodrigues

Na rua do Hotel Providência, onde grande parte dos moradores afetados pela tragédia estão hospedados, se vê a comunidade de Bento Rodrigues. Em frente ao local as conversas são cheias de emoções e lembranças de tudo que se foi.

Enquanto uma mãe explica para o filho que seus brinquedos foram levados pela lama, um homem lamenta: “de bem material eu não perdi nada, morava na parte alta de Bento. Mas perdi minha vida, meu passado”, explica, dando importância à sua história.

Do outro lado da rua, um senhor com seu rádio de baixo do braço escutava alto a canção “O homem de Nazaré”, do Chitãozinho e Xororó. “Ele modificou o mundo inteiro… Ele revolucionou o mundo inteiro…”, tocava a música, dando esperança ao coração do velho cheio de fé. Próximo a ele, um grupo de jovens conversava sobre um torneio que futebol que ia acontecer em Mariana, e o time de Bento iria jogar: “é bom, pelo menos alivia as ideias”, disse um deles, com a expectativa de se livrar, pelo menos por algumas horas, das lembranças.

Tentando existir no meio do caos

Wanderley, filho de Maria Eliza Lucas.

Wanderley, filho de Maria Eliza Lucas.

Maria Eliza lutou contra a obesidade, diabetes e trombose, venceu. Emagreceu, deixou a insulina e aguardava pela cirurgia plástica para retirar as peles excedentes. Cuidou da saúde e aproveitava a velhice para fazer o que mais gostava: pescar.

Era o que ela estava fazendo quando foi arrastada pela lama. Do local em que ela estava não restou nada. Os tanques, os peixes, a casa, tudo se foi lama abaixo, “tá tudo liso”, conta o filho, Wanderley Lucas, 38 anos.

O grande dilema na história de Maria e do seu filho, que ainda a aguarda, é que ela não estava entre os números. Ela morava em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, portanto, não estava na lista de moradores de Bento Rodrigues, muito menos na lista de trabalhadores da Samarco. Fora do contexto do caos seu nome não podia ser inserido entre os desaparecidos. Ali, Maria não podia existir.

Foram mais de 30h, segundo Wanderley, para conseguir fazer a ocorrência. Mais de 30h para provar que sua mãe havia sido “tragada pela lama” que levava tudo o que estava pela frente (e continua levando) sem nenhuma piedade. Mais de 30h para afirmar o que ele jamais gostaria de dizer: “minha mãe desapareceu!”.

“Eu tive uma dificuldade enorme para registrar o desaparecimento dela, mesmo tendo relatos de pessoas que viu ela sendo tragada e levada pela lama”, conta. Somente no dia 7 de novembro, pela manhã, 2 dias após a tragédia, Maria passou a fazer parte da lista de desaparecidos, depois do filho ir à Defesa Civil, Samarco, Policia Militar e, cansado, à mídia.

O que resta para Wanderley, além de esperar, são as lembranças. Nelas, Maria se eterniza. “As oportunidades de fazer o que ela mais gostava juntos foi maravilhoso. São lembranças que jamais serão apagadas da memória”.

Cinco anos de história

Wanderley Isabel, 24 anos, fugia com os filhos Emanuele e Nicolas, 3 anos, mas foi atingido pela lama que quebrou suas duas pernas. No golpe, a filha escorregou de seus braços. A menina foi encontrada a cerca de 70 km do local onde foram atingidos. Ele não pôde participar do enterro, estava sendo operado num hospital em Santa Bárbara, a 76 km de Mariana. E ainda estava internado no dia em que conversei com sua esposa, Pâmella Raiane, 21 anos.

A mãe estava na escola na hora em que tudo aconteceu, deu tempo de correr, e do alto de Bento Rodrigues, ela assistia a tragédia, em desespero. “Eu queria ir lá pra ver como eles tava, mas os professores não deixavam, diziam que eu ia morrer. Me restou esperar”, conta.

Pâmella tinha 15 anos quando engravidou e precisou parar de estudar. Antes da tragédia, mãe e filha caminhavam rumo à realização de um sonho: ambas se formariam este ano. Emanuele iria para a primeira série e a mãe completaria o nono ano. “Mas, aconteceu…”, lamenta.

A lama levou a jovem mãe a uma condição sem nome. Da noite para o dia ela se encontrou num vácuo onde não existe uma nomenclatura que classifique seu atual estado. Como diz Márcia Noleto, fundadora do Instituto Mães Sem Nome: “… quando se perde um filho, não há nome no dicionário para qualificar esse seu novo status quo”.

Em sua nova condição, a mãe sem nome segue tentando se reinventar. Tateando os dias com muito cuidado para entender o que a vida lhe reserva. E neste caminho, sua bagagem é feita de lembranças:

Pai de família

Daniel era funcionário de uma empresa terceirizada da Samarco, trabalhava na barragem no dia em que ela se rompeu. Foram dias a fio sem notícias, sem ao menos uma pista de onde ele poderia estar. Situação difícil para a família, uma vez que ele nunca deixou de avisar seu paradeiro mesmo que fosse atrasar pouco tempo do combinado.

Sua esposa, Tânia Penna Carvalho, 48 anos, se lembra do esposo cuidadoso, emocionada. Daniel esteve ao lado dela durante todo o seu recente tratamento contra o câncer, “ele sempre me ajudou e acompanhou”, conta. Além disso, era um bom pai, dedicado, “ele sempre pensou no futuro das meninas”.

O bom pai foi encontrado antes do fechamento da reportagem. Seu velório e enterro foram dia 28 de novembro, o que tirou Tânia da aflição diária de imaginar que “no momento em que ele mais precisava dela, ela não podia estar lá”. Seu desespero era tanto que, se pudesse, “cavava a lama com as próprias mãos”.

Ailton foi outro pai que se foi. Sua história na tragédia se difere da de Daniel apenas pelo fato de que ainda não foi encontrado. As lembranças no coração do filho, Emerson dos Santos, 30 anos, falam do grande pai que ele foi:

Mobilização

As famílias encontraram reforço junto ao Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, um grupo que, há 20 anos, atua principalmente junto às populações que são atingidas pela construção de barragens. Com o auxílio deles se organizam a fim de conseguirem garantias perante a lei.

O movimento vem intervindo na tragédia do rompimento das duas barragens da Samarco, em Mariana. Abaixo, a Coordenadora Estadual do Movimento, Alexsandra Maranho, 28 anos, explica um pouco das ações do MAB na região:

Entre mortos e desaparecidos

Os dias em Mariana me fez lembrar um trecho da obra “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, de Umberto Eco: “era como se acordasse de um longo sono e, no entanto, estava ainda suspenso em um cinza leitoso. Era um estranho sonho, desprovido de imagens, povoado por sons. Como se não visse, mas ouvisse vozes que me contavam o que devia ver. E contavam que eu ainda não via nada, exceto um fumegar ao longo dos canais, onde a paisagem se dissolvia”. Em meio a tantas memórias, talvez essa seja a melhor maneira de definir meu tempo ali.

Sobre o total de números que não me deixavam esquecer, escolho não citar. Prefiro os nomes:

Antônio Prisco de Souza

Ailton Martins dos Santos

Claudemir Elias dos Santos

Claudio Fiuza

Daniel Altamiro de Carvalho

Emanuele Vitória

Edinaldo Oliveira de Assis

Edmirson José Pessoa

Sileno Narkievicius de Lima

Marcos Xavier

Marcos Aurélio Pereira Moura

Mateus Márcio Fernades

Maria Elisa Lucas

Maria das Graças Celestino da Silva

Pedro Paulino Lopes

Samuel Vieira Albino

Thiago Damasceno Santos

Vando Maurílio dos Santos

Waldemir Aparecido Leandro

BarragemJornalismoLamaMarianaSamarco

Léo Barbosa • 02/12/2015


Previous Post

Next Post

Comments

  1. Mirian da Rosa 02/12/2015 - 17:13 Reply

    Parabéns pela sensibilidade!

    • Léo Barbosa 03/12/2015 - 10:18 Reply

      Obrigado! 🙂

  2. Helder Sezinaldo 02/12/2015 - 19:58 Reply

    O desdobramento que você expôs aqui foi o texto mais humanizado que li até hoje sobre este acontecimento. Está de parabéns.

    • Léo Barbosa 03/12/2015 - 10:18 Reply

      Valeu, Helder!

  3. 04/12/2015 - 12:47 Reply

    Ô mano, parabéns pela excelente matéria. Contemplou todos os pré requisitos do bom jornalismo, aliados à grande pessoa que vc é. Eu que tenho o prazer de conviver contigo, acompanhei a sua (ótima) narrativa, como se estivesse ao seu lado nesses locais com esses verdadeiros guerreiros. Mais uma vez parabéns por dar voz e vez a esses lutadores que estão condicionalmente mudos por uma gestão sem coração e uma sociedade hipócrita.

    • Léo Barbosa 04/12/2015 - 13:20 Reply

      Valeu demais, mano!

  4. Mariana: A lama que transformou gente em número « Sul21
  5. Lucas 08/12/2015 - 11:10 Reply

    Oi, Leandro.

    Como esta história me entristece. É um golpe duro. Nossa sociedade está tão marcada pela violência cotidiana que muitas pessoas não se solidarizam. Muito menos os poderosos. A mídia filtra e manipula descaradamente. Obrigado pela coragem de ir, registrar e compartilhar.
    Um abraço

    • Léo Barbosa 10/12/2015 - 22:00 Reply

      Obrigado, mano. E eu te agradeço por acreditar no meu trabalho.

      Infelizmente vc tem razão.

  6. DO LUCRO À LAMA: uma viagem de Mariana ao fim do mundo – Jornalistas Livres
  7. DO LUCRO À LAMA: uma viagem de Mariana ao fim do mundo – Jornalistas Livres
  8. Jornalistas livres – DO LUCRO À LAMA: uma viagem de Mariana ao fim do mundo | Blog do Pedlowski
  9. O RAIO X DA TRAGÉDIA DE MARIANA: DE MINAS AO FIM DO MUNDO PARTE 1 | Sérgio Rocha Repórter

Deixe uma resposta

Your email address will not be published / Required fields are marked *