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A mãe de muitos filhos

Os olhos de Lúcia Helena não seguraram as lágrimas enquanto ela buscava em suas lembranças o que achava pertinente contar sobre a sua história. Ela vive no Jardim Gramacho desde 5 anos de idade, hoje, tem 43 anos. A mulher carrega no coração a dor de ter tido dois irmãos assassinados. A consequência deste momento foi o medo – sentimento que caminha lado a lado com a violência – de novas perdas para o crime ou para a morte. E diante disso, ela caminha com apenas um objetivo na vida: proteger sua família.

Com ela moram quatro filhos. Um deles “é de criação”, se uniu a família quando tinha apenas 18 dias de vida, porque a mãe biológica não tinha condições de cuidar. Além deles, quatro netos passam o dia por lá e, na maioria das vezes, acabam ficando na casa da avó. A filha mais velha, Queila dos Santos, 28 anos, mora num barraco com o marido, ambos surdos e mudos, no mesmo terreno.

Nos três cômodos da casa de Lúcia, à noite, os colchões se espalham. Ao amanhecer um deles vira sala. Do lado fora, um banheiro improvisado, a cozinha foi construída no mesmo modelo, mas hoje “já tem paredes”.

Expressivo, Dada não mede esforço para se comunicar.

Expressivo, Dada não mede esforço para se comunicar.

Subversivos, me atrevo a chamá-los assim, vivem cada dia para superar a violência e a pobreza que, de alguma maneira, parece um decreto estabelecido a quem nasce na favela. E para garantir que isso aconteça, Lúcia se esforça para que as oito crianças estejam sempre próximas a ela. Ao redor do terreno, ela improvisou muros com madeirites e tábuas velhas. “Só saem pra rua se for comigo”, diz. No quintal, as crianças dividem os brinquedos e a atenção dela, que tenta ser mais que uma em alguns momentos, na expectativa, às vezes frustrada, de atender todos os “gritos de vó ou mãe” constantes pela casa.

Pelas mazelas que viveu com seus pais e irmãos, Lúcia conta que tinha somente duas opções: fazer diferente ou seguir os exemplos de casa. “Eu aprendi só coisa ruim no mundo”, se lembra. Seus pais eram alcoólatras, e ensinavam ela e os irmãos a beberem desde cedo. “Meu primeiro porre foi com um ano, cachaça com açúcar. Meus pais saíram e eu e minha irmã bebemos, meu irmão mais velho que nos salvou”.

Lúcia teve a rua como casa, por cerca de um ano, as circunstâncias que rodeavam ela e sua família, entre elas a pobreza e a violência, os empurrou pra lá. E, ainda criança, até conseguirem ajuda na igreja católica da cidade, tinha como quintal a porta da delegacia de Duque de Caxias. Lugar escolhido pela mãe “por ser mais seguro”, conta. Dali, aos 5 anos de idade, foi para o Jardim Gramacho.

Além disso, duas situações levariam Lúcia a agarrar a vida com unhas e dentes e almejar algo melhor. A morte violenta de seus dois irmão foram o marco da mudança. Marcos, 16 anos, foi encontrado em decomposição, o outro se chamava Roberto, 22 anos, foi esquartejado e jogado num rio. Para ambos, “não houve despedida”, as condições não permitiam. Mas a lição estabelecida pelo terror do momento cravou-se como estacas em sua alma: cuidaria de seus filhos e netos e os protegeria da violência que se institui fora dos muros da sua casa.

“Deus me preparou pra ser mãe, e meus filhos são meus frutos”

Lúcia não trabalha. Separada do marido, resolveu cuidar dos filhos embora a necessidade pela falta de dinheiro sempre bata na porta. Ela entende que é mais fácil lidar com a dificuldade pela falta de recursos do que com dor de ver seus filhos e netos “mortos ou se envolvendo com coisa errada”. A renda atual da família é a pensão de R$180 que recebe do pai das crianças, “mas que tá atrasada há quatro meses”, e R$413 de Bolsa Família, além da ajuda da ONG Ide – Inclusão e Desenvolvimento pelo Esporte – com roupas e cestas básicas.

A realidade da Lúcia, mesmo diante de suas escolhas, não se difere de grande parte de outras famílias da favela. Segundo levantamento feito pela ONG TETO, em 2013, com 204 famílias que totalizam 580 pessoas do Jardim Gramacho, cerca de 50% das pessoas empregadas maiores de 18 anos não têm carteira assinada. 80,7% dos entrevistados vivem com uma renda domiciliar per capita menor que a metade do salário mínimo do Brasil – R$ 233,70 incluindo benefícios do Bolsa Família e outros programas. Sem os benefícios o PIB per capita cai para R$ 205,00 enquanto na cidade do Rio de Janeiro é de R$ 1787,70.

“uma mãe primeiro se educa e, somente assim, é capaz de ensinar seus filhos”

Embora lute bravamente contra as condições precárias da comunidade, Lúcia incorpora as estatísticas e faz parte dos números dos que não terminaram o ensino fundamental, segundo o relatório apenas 2,4% dos chefes do lar, maiores de 25 anos, completaram o ensino médio enquanto na cidade do Rio de Janeiro esse número sobe para 53,7%. Além disso, sua casa faz parte dos 91,6% de moradias que não possuem água potável e energia elétrica regular e, também, das que possuem mofos constantes causados por infiltrações.

Entre suas inúmeras funções como mãe-avó, Lúcia precisa ensinar seus netos a falar língua falada, já que a filha e o genro falam apenas a língua de sinais. Alex, 3 anos, é conhecido como Dada. Sua fala tem se desenvolvido junto aos tios que também são crianças. O garoto se arrisca na língua de sinais e o que não sabe dizer inventa, “mas consegue o que quer”, conta a avó. E neste processo ensino, como regra de conduta, Lúcia foi estudar, mas lamenta não ter conseguido permanecer. “Tive que cuidar das crianças. Mas com fé em Deus ano que vem eu continuo”.

No meio de tudo isso, Lúcia se foca no que ela entende como sua vocação: ser mãe. “Deus me preparou pra ser mãe, e meus filhos são meus frutos”, afirma. Pra ela, uma mãe “primeiro se educa” e, somente assim, é capaz de ensinar seus filhos. E, nesta certeza, caminha por esse trajeto de avaliar a si mesma para ser capaz de cuidar e amar.

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Léo Barbosa • 14/09/2015


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