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A senhora da mansão de papelão – Parte II

Conheci a Lúcia numa madrugada na Rua da Bahia, em BH. No final da nossa rápida conversa ela disse: “depois passa lá na mansão pra tomarmos um café imaginário”. Naquele momento ela me cativou. Primeiro, por me convidar para tomar um café, mesmo que imaginário (dificilmente eu nego um café).  Segundo, porque algo me dizia que seria um momento transformador.

No nosso primeiro encontro, que rendeu a matéria “A senhora da mansão de papelão”, ela contou um desejo, que prefiro descrever com suas próprias palavras: “sinto falta do café com leite e do pão. Mas quero sentar numa mesa e comer. Tem que ser numa mesa!”. Uma amiga se sensibilizou com a matéria e realizou esse desejo na última quinta-feira (26) e foi incrível. Espero relatar, com a mesma intensidade e emoção, o dia em que o café perdeu lugar para uma coca-cola, que teve como companhia o pão com mortadela.

De onde vem esse nome? (Instantes antes do café)

“Léo, você sabe de onde vem esse nome?”, pergunta Lúcia. Respondo que não. Ela segue contando: “a Susie tava muito doente, não tinha forças pra parir. Não pensei duas vezes, fui a pé daqui (Rua Espírito Santo, centro de BH) até a clínica veterinária da UFMG (Universidade Federal de Belo Horizonte, aproximadamente 7 km de distância). Quando cheguei lá, a menina me olha e diz que era 60 conto pra atender. E eu falei: ‘moça, eu moro em um dos metros quadrados mais caros de BH, mas meu endereço é na Av. Álvares Cabral, terceira árvore. Numa mansão de papelão.’ Na época eu tava no canteiro da avenida. Depois disso, me atenderam de graça”.

O café que virou refri

Fomos numa padaria self-service na Avenida Augusto Lima no centro de BH. E, ali, a vontade pela coca-cola sobressaiu o costume mineiro do café com leite. O pão com mortadela parecia ser um desejo de tempos e rendeu uma longa conversa sobre a Hebe Camargo. Segundo Lúcia, Hebe amava um pão com mortadela. Descobrimos uma fã. Sua admiração pela atriz, cantora e apresentadora é de longa data. Conta histórias do casamento dela, do seu marido sempre presente. Fala da elegância e humildade da apresentadora, e acha linda sua amizade com as atrizes Nair Belo e Lolita Rodrigues. “Ela era do ca***”.

A conversa se estende e agora falamos sobre a sua juventude. “Um dia minha família toda foi passar o carnaval em Diamantina (MG), eu não quis ir. Fiquei com alguns amigos aqui em BH e tive a ideia de dizer que morri num acidente. Meus amigos ligaram pra lá e todos voltaram. Tava todo mundo na sala e eu apareci. Teve tia que caiu sentada no sofá”, conta rindo. Episódio que na época lhe rendeu sérios problemas. As avenidas de Belo Horizonte eram pequenas diante do mundo vislumbrado, por Lúcia e seus amigos, em cima de um skate. “Tinha uma esquina que sempre apostávamos pra ver quem conseguia ficar de pé”.

Lúcia é artista plástica, estudou na Guignard, Escola de Belas Artes da Universidade Estadual de Minas Gerais. “Eu sempre gostei de pintar gente. O ser humano é muito louco”, diz. Ela encara as pessoas como um mapa a ser decifrado e, por vezes, a resposta do enigma está no olhar. Segue a conversa parafraseando Fernando Sabino: “você sabe que mineiro não olha, espia! E ainda, é de canto de olho”. Pensa um pouco e continua: “meu sonho é fazer uma exposição sobre olhares. Queria ter uns óculos que filma, tira foto, desses que fazem de tudo. Ia gravar o olhar de cada um, depois ia colocar as fotos lá na parede com a frase: esse é o jeito que vocês nos olham”.

Vida no morro

A realidade no morro vai além do que vemos nos jornais. É fato que a favela é um dos muitos “brasis” que há em nosso País. Ali, a lei é outra, e na boca, quem manda é o traficante. “No morro me chamam de tia dos cachorros. Sempre fico na minha e pago minhas contas, pra não queimar o filme”, conta Lúcia. Tornou-se querida entre frequentadores do local. Quando se trata de usuários o lugar promove encontros de classes sociais, negros e brancos, e, de histórias. “Eu já fumei maconha ao lado de uma menina que me assaltou quando eu era madame. Pensei comigo: engraçado, né?! Ela ainda se despediu falando: ‘tia, você é pelas ordem’!”.

O dia a dia no morro se estende, são tantas coisas que acontecem que o dia parece ter mais que 24h. “Teve uma vez que parou um carro, baixou a janela, e o cara disse: ‘tia, sai correndo!’. Eu perguntei por que, ele me mostrou uma arma de todo tamanho. Matou um tanto de gente. Cheguei no centro de BH em dois minutos”. Emenda com outra lembrança: “outra vez, um morador de rua roubou um cachorro meu. Subi o morro igual a uma louca. Saí gritando com todo mundo. O traficante apareceu e gritou: ‘você não tem medo de morrer, sua velha doida?’ Respondi: ‘sei onde estou e não dou meu direito pra ninguém. Quero meu cachorro!’ Ele disse: ‘não vou sair no prejuízo, 30 Reais’. Virei Belo Horizonte de ponta cabeça, mas resgatei meu cachorro”, conta.

Para Lúcia, quando o assunto é sua matilha, a questão é a felicidade.

A senhora e a polícia

Na madrugada, um grito: “cuidado com o fogo!”, o som vinha do carro da PM, ameaçavam Lúcia. As ameaças passaram por etapas: avisos, agressão, e hoje, pelo descrédito e tensão nos relacionamentos entre alguns servidores da instituição, à moradora de rua. Segundo ela a crise começou por causa de uma discussão: “um dia eu cumprimentei um casal e dei uma informação. Eu tava perto de um estacionamento e tava saindo um cara da PM, ele disse que eu tava importunando e tinha agredido eles. Chamei os dois e pedi pra dizerem o que eu tava falando. Depois, falei pra ele: seu papel é proteger a integridade das pessoas . Vai estudar o Código Penal e a Constituinte Brasileira”, conta. A questão é que no Brasil a PM não manda recado e tem suas artimanhas, violentas, pra mostrar quem tem o poder. “Tava subindo a avenida de madruga e um carro parou na minha frente. Saiu o cara da discussão e mais alguns. Ele torceu meu braço e dizia que ia quebrá-lo. Eu falava: isso é pessoal! Ele respondia que sim. Falei: isso é prevaricação. Nesse dia vi estrela sem levar um soco no nariz.” Dá um gole na coca e continua: “me colocaram no carro, tinha outros moradores de rua. Ficavam dando voltas com a gente. Reclamei que meu braço tava doendo, pedi pra me deixarem no hospital. Não me deixaram lá. Me largaram longe e com o aviso pra não procurar o hospital”. A senhora é dessas que não deixa barato e diz: “hoje, quando eles passam aqui, eu grito: ‘e ai, tá estudando’?”.

O fim do café

Já tinham se passado duas horas de conversa e eram mais de 21h. Depois de tantas lembranças da vida, Lúcia fala: “cara, se eu tivesse grana, comprava muito frango, pra mim e pros meus cachorros. Frango com coca é bom demais!”. Minha amiga interrompe: “nó, um franguinho com quiabo é muito bom!”. Ela retruca: “que nada, frango é bom comer igual na idade média. Ele tá lá na mesa e você vai e arranca um pedaço com a mão”. Ao dizer isso a senhora imita a cena e, como em muitas situações em sua vida, imagina-se, desta vez, comendo um frango.

É hora de ir embora, Lúcia pede mais uma coca e um maço de cigarros. No caixa, vemos a cena do cotidiano dela. O olhar que todos olham. “Moça, quem é o gerente daqui?”. A mulher olha, de canto de olho, e volta seu olhar para o computador. Sem mencionar uma palavra, faz um sinal com os ombros, com a intenção de dizer que não sabia. Indignada, ela diz: “agora pergunta vocês. É desse jeito!”. Durante o café ela nos contou como era a padaria antigamente. Seu interesse era curiosidade, só queria saber quem havia feito as mudanças. Mas, para atendente, ela não era digna de respostas.

Nossa conversa termina onde tudo começou, na esquina da Av. Álvares Cabral com a Rua Espírito Santo. Desta vez, o café não foi imaginário, mas as histórias continuaram intensas assim como na primeira conversa. Me despeço carregando a experiência do olhar, aquele de canto de olho, que dói no fundo da alma.

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Léo Barbosa • 01/04/2015


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Comments

  1. Lisia Vilela 08/04/2015 - 02:19 Reply

    Parabéns Léo pela sensibilidade e leveza ao escrever uma experiência tão singular como a da D. Lúcia! Trabalho relativamente perto de onde ela mora e e vez ou outra me perguntei sobre a história dela. Diferentemente de você, infelizmente não me aproximei desta história especial. Te agradeço por compartilhar conosco um pouco do que a Lúcia tem a dizer. Espero tomar um café com ela e se possível não presenciar este olhar de canto de olho que realmente dói.

    • Léo Barbosa 13/04/2015 - 16:09 Reply

      Obrigado Lisia. Não perca a oportunidade de tomar um café ela. 🙂

  2. Raquel Lobo Remigio 08/04/2015 - 17:56 Reply

    Ual! Que história! Ela está certíssima. Sou também observadora de olhares, mas penso que nunca tinha visto com a profundidade e simplicidade que ela consegue ver, ou simplesmente não coloco para fora aquilo que notei.
    Essa história me fez sorrir e conhecer algo mais de mim. Parabéns pelo texto, pela forma tão fiel como a traduziu.

    • Léo Barbosa 13/04/2015 - 16:09 Reply

      Obrigado moça!

  3. Mari Mafra 09/04/2015 - 22:17 Reply

    Muito tocante a história dessa moça e o seu relato, Leo! Sempre passo por ela… que Deus a abençoe e a proporcione uma família!

    • Léo Barbosa 13/04/2015 - 16:07 Reply

      Obrigado Mari!

  4. Márcia 30/05/2015 - 01:57 Reply

    Oi Léo,

    Lindo o texto, percebi que você tem um carinho bem grande pela Lúcia e gostaria de saber se topa nos ajudar. Sei que algumas pessoas já tentaram ajudar a Lúcia antes e não deu certo, mas nós também gostaríamos de tentar. Você poderia nos ajudar a divulgar a vaquinha? http://www.mobilizefb.com/farmaciasolidariabh

    Neste post explicamos melhor: https://www.facebook.com/farmaciasolidariabh/videos/906669142709984/

    Resumindo, ela ganhou um lote em Santa Luzia e estamos arrecadando dinheiro para construir uma casinha lá, para ela e os cães.

    • Léo Barbosa 31/05/2015 - 19:15 Reply

      Oi, Márcia!

      Será um grande prazer ajudá-los, sem dúvida! Entre em contato via e-mail: comunicacao.leo@gmail.com, para conversarmos melhor.

      Abraço

  5. suzana 27/07/2015 - 22:50 Reply

    LÉO ADOREI A REPORTAGEM. NÃO ESQUECI DAS FOTOS. ELA E UMA PESSOA MUITO INTELIGENTE E NÃO SEI SE VOCÊ SABE ELA E ARTISTA PLASTICA.
    SOU A SUZANA QUE VOCÊ FICOU CONHECENDO E LEMBRAMOS E FICAMOS RINDO COM VOCÊ QUANDO ESTÁVAMOS LEMBRANDO O NOSSO TEMPO DE CRIANÇA.
    UM ABRAÇO.

    • Léo Barbosa 28/07/2015 - 13:18 Reply

      Oi, Suzana, lógico que eu lembro. Manda para comunicacao.leo@gmail.com. Ela me disse que é artista plástica.

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