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A voz que faz enxergar

O uso da tecnologia no processo educacional de deficientes visuais

Na década de 90, ouvia histórias sobre os esforços e a garra dos cegos da época que buscavam se formar em alguma faculdade. Naqueles dias, as fitas K7 eram o auge. Com a ajuda de amigos e parentes, os textos e conteúdos dados em sala eram gravados e, desta forma, eles podiam estudar. Hoje, com o apoio da tecnologia, essa realidade começa a se transformar, já que o deficiente visual pode contar com alguns programas que ajudam no processo educacional, como é o caso do software Dosvox.

Trata-se de um software livre com programa sintetizador de voz, criado e desenvolvido em 1993, pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua criação inovou e favoreceu o acesso à informação para deficientes visuais. Ao ser iniciado, o programa faz a seguinte pergunta: “Dosvox, o que você deseja?” Pergunta interessante pra quem almeja tantas coisas.

Buscando entender melhor o processo de aprendizagem para o uso do Dosvox, visitei a Fundação Dorina Nowill para Cegos em São Paulo, que há 60 anos trabalha pela inclusão social de cegos. Um dos seus programas propõe o ensino das novas tecnologias, para que os usuários com deficiência visual resgatem sua autonomia e sejam protagonistas de suas histórias.

Na fundação, os softwares de voz e ampliadores de telas para computadores, celulares e tablets que, junto com os teclados de tipos ampliados e as linhas braile digitais, facilitam o processo educacional e inovam a didática de ensino, ficam disponíveis aos alunos cegos ou de baixa visão. Com educadores capacitados, eles aprendem a usar o Dosvox, além de outras ferramentas disponíveis para o dia a dia.

Elson Lopes (39) é cego e graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais. Perguntei a ele o que seria da vida sem uma voz que o guiasse, enfático, responde: “A voz é essencial pra quem não vê. Essa é nossa única opção. A vida? Não seria”. Elson entendeu que sua visão vinha através do som e o Dosvox trouxe isso. O programa fala e, pela palavra, a vida passa a ser. Ser o que afinal? O que eles quiserem. Pela voz eles enxergam e desbravam um mundo antes desconhecido.

Segundo a assessora de serviços de apoio à inclusão da Fundação Dorina Nowill para Cegos, Eliana Lima (52), a tecnologia é fundamental para a educação e, por meio dela, a distância que há entre o aprendizado da pessoa com deficiência visual e o aprendizado da pessoa com visão normal se estreitou. “O mundo da deficiência visual e o dos videntes ficaram mais próximos. A tecnologia otimizou os conteúdos passados em sala de aula, auxiliando tanto o aluno como o professor”, afirmou.

Quando a assistente social, cega e funcionária da Fundação Dorina Nowill, Regina Marques (60), estudava, sua mãe a ajudou nas gravações das fitas K7. Para ela, trabalhar e se especializar em sua área hoje é muito mais fácil. “A tecnologia deu um grande salto na acessibilidade dos cegos pra educação. Diminuiu as barreiras. Os leitores de telas, livros digitais e todos os programas que podemos utilizar facilitaram o processo educacional de um aluno cego”, disse a assistente.

Li uma frase de Dorina na fundação: “Vencer na vida é manter-se de pé quando tudo parece estar abalado. É lutar quando tudo parece adverso. É aceitar o irrecuperável. É buscar um caminho novo com energia, confiança e fé”. Quando sai de lá, fechei meus olhos e imaginei alguém dizendo essas palavras. Aprendi a enxergar.

AprendizadoJornalismoSuperação

Léo Barbosa • 04/12/2014


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