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Codinome senzala – parte 1

A história de trabalhadores que viveram como escravos, por mais de 50 anos, no Brasil, e foram resgatados em 2007 


por Leandro Barbosa

Em 23 de agosto de 2007, Domingos Ferreira dos Santos, na época com 86 anos, foi resgatado do inferno. Adjetivo usado por ele para se referir à Fazenda Caiana / Santa Rosa, em Guaraíta (GO), onde, juntamente com Eliane do Nascimento Silva, Edi Maria da Silva e Iracema Cardoso de Souza, viveu como escravo por cerca de 50 anos.

Por três gerações da família Gouveia, as vítimas sofreram todo tipo violência: primeiro por Terezinha Ferreira Gouveia e pelo falecido Celestino Gouveia, donos da fazenda. E depois pelo filho Waldemar Ferreira Gouveia e pelo filho dele André Gouveia.

Segundo consta nos autos, no dia em que foi encontrado Domingos estava fazendo cerca de arame farpado. O calor era intenso. Sua aparência maltrapilha e o corpo lesionado figuravam a crueldade que sofria. Suas mãos e umas das orelhas estavam sangrando. Todos os seus dedos estavam machucados. Sinais do espancamento que sofreu na noite que antecedeu o seu resgate:

“… seus dedos das duas mãos estão esmagados e sempre sangram, porque quando já não tem mais força para ordenhar mais rezes o André e o Waldemar pegam uma marreta e esmagam os seus dedos para que não pare e então por causa da dor e do medo continua tirando mais leite e labutano nas cerca, curral e tudo mais”Trecho do Processo.

Domingos carrega em seu corpo as marcas de anos de violência. Cicatrizes. Sua história encarna os tempos do Brasil Colonial. Segundo o Procurador do Trabalho Alpiniano do Prado Lopes, o homem ainda apanhava no tronco. O Procurador ainda diz que ver as costas de Domingos foi uma cena que ele nunca imaginaria presenciar fora das telas do cinema, fazendo referência à história da escravidão no país. Para Alpiniano, este foi um dos piores casos de trabalho escravo que ele já viu e que não tem como tratar tal situação como algo análogo à escravidão. Na explicação do Procurador, a violência vivenciada por Domingos e pelas três mulheres não cabe dentro do conceito atual de trabalho escravo.

Abaixo, Domingos relata um pouco do que ele viveu:

Ao ser resgatado, Domingos exigiu que pegassem na fazenda sua pedra de amolar faca e o seu facão. Objetos de trabalho com os quais ele cresceu. Uma espécie de memorial que o faz transitar entre o passado e o presente. E que afirma o que ele sempre foi: trabalhador.

Onde está a dignidade?

Iracema tinha aproximadamente 76 anos quando foi encontrada com as roupas rasgadas e sujas, descalça e com os pés rachados, trancada dentro de uma casa que era conhecida como “sede da fazenda”. ‘Cema’, como é chamada, era responsável pelos serviços domésticos. Inclusive, era incumbida de limpar o quarto de Domingos, com apenas uma cama e uma caixa onde ele guardava as poucas roupas que possuía, além de um cofre improvisado com cerca de 3 reais, que ele afirmava ser todo o seu dinheiro e acreditava ser muito.

Temerosa devido às constantes surras que levava, tentava impedir que Domingos falasse com a Juíza Ana Cláudia Veloso Magalhães e os policiais que a acompanhavam no dia do resgate, enquanto ele afirmava “que ela fazia isso porque tinha medo de morrê”.

“Na explicação do Procurador, a violência vivenciada por Domingos e pelas três mulheres não cabe dentro do conceito atual de trabalho escravo”

Edi e sua filha Eliane ficavam em uma cidade a cerca de 30 minutos de Guaraíta, chamada Itapuranga. Ali, eram responsáveis pelos afazeres domésticos da casa de Terezinha. Devido a um retardo mental em decorrência da esquizofrenia, Eliane era tratada com menos severidade, já sua mãe não tinha a mesma “sorte”:

“Na casa residencial onde moravam as agravantes Edi e Eliane, descreveu-se que Edi, idosa de aproximadamente 84 (oitenta e quatro) anos, trajava roupas sujas e rasgadas, dormia em aposentos sem iluminação, com colchões completamente destruídos e amplamente sujos, tendo sido encontrada de joelhos na cozinha lavando as partes inferiores de um armário e esfregando o chão, mesmo com problemas na coluna, e suas mãos pareciam de escravos, com unhas completamente doentes e putreficadas”Trecho do Processo.

Edir, Domingos e Iracema chegaram à fazenda quando eram crianças. Segundo lembram, seus pais os entregaram a Terezinha por não terem condições de cuidar deles. Todos cresceram sem certidão de nascimento, não existiam para o Estado “e para muitos da região em que moravam e eram explorados”, segundo o Procurador do Trabalho.

Os registros deles foram feitos apenas na velhice com intuito de que os exploradores pudessem dar entrada na aposentadoria e se beneficiassem do dinheiro. Todos os documentos ficavam sob a posse de Waldemar. Além disso, os Gouveias entraram com um pedido de interdição alegando que os quatro trabalhadores eram seus familiares e que todos não tinham capacidade mental e necessitavam de um curador para administrar o recurso – que por um bom tempo nenhuma das vítimas não viram sequer o rastro.

Diferente dos três, Eliane ‘nasceu escrava’ e por 16 anos viveu nessa condição. Conforme o depoimento de Maria Uilma do Nascimento, filha de Terezinha, nascida em seu segundo casamento, Eliane é filha de Celestino, que abusava constantemente de Edi e de outra “criada” da fazenda:

“… passaram por vários tipos de abusos sexuais por parte de Celestino Gouveia, ex-esposo de Terezinha Ferreira Gouveia, com conhecimento e anuência desta; que tanto esta como seu ex-cônjuge espancavam as interditandas, tendo em vista que Terezinha espancava por “ciúmes” e por saberque seu esposo abusava sexualmente de suas criadas, ao passo que Celestino com intenção de”força-las a consentirem com as relações sexuais” às vezes ocorridas altas horas da noite em seus quartos; que diante de tantas violações sexuais uma das interditandas Edi Maria Da Silva e outra ‘criada’ do casal de nome Joaquina Cardoso Neta, falecida recentemente,engravidaram dando à luz à Eliane do Nascimento Silva e José Maria Cardoso”Trecho do Processo.

*Procurado, José Maria não quis se pronunciar sobre o caso. Embora Iracema e Edir tenham concordado com a entrevista, não quiseram se pronunciar sobre o passado e apenas afirmaram que atualmente estão bem, assim como Eliane.

Continua…

>> Confira a PARTE 2 do caso

exploraçãotrabalho escravo

Léo Barbosa • 26/01/2017


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Comments

  1. Rod Silva 27/01/2017 - 10:06 Reply

    Agoniante essa história!

  2. Iza 27/01/2017 - 13:27 Reply

    Parabéns pela matéria excelente. Triste realidade, mas é bom saber que existem pessoas que ainda se importam em pesquisar, se interessam por expor detalhes escondidos por tantos outros. Que com a exposição venha a libertação, principalmente aquele que ocorre na mente. Aguardo a continuação.

  3. Helder Sezinaldo 31/01/2017 - 18:07 Reply

    Meus mais sinceros Parabéns!
    Se já fiquei com os olhos molhados lendo esta primeira parte, receio que vai ser complicado terminar de ler este trabalho fenomenal que estão fazendo.
    É de cortar o coração saber que o mundo ainda sofre com o flagelo da escravidão.
    Continuem sendo estes excelentes jornalistas!

  4. Milton 24/04/2017 - 01:21 Reply

    Estarrecedor!

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