História-Incomum-Dos-Efeitos-de-Amor-Assim

DOS EFEITOS DE AMOR ASSIM

Por Hugo Bento

 

Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? (ROSA, 1956/1994, p.190)

Após o – calórico – almoço japônico-chinês regado à suco verde, eu e Benjamim nos sentamos na calçada de uma movimentada avenida de Belo Horizonte. Trânsito intenso, buzinas e muitos carros nos rodeavam. Contudo, à medida em que narrava a sua história, Benjamim capturou-me a atenção de maneira tal que, por uma hora, senti-me em uma silenciosa sala confortável. Nas linhas que seguem, o leitor encontrará dados biográficos, algumas reflexões sobre tais dados e, principalmente, a tentativa de um escritor-aventureiro de transmitir com as palavras a honestidade de um encontro generoso.

Benjamim nasceu e cresceu em um lar cristão pentecostal e é o filho mais velho de um casal afrodescendente que, “com muito suor, muito trabalho”, construiu uma casa na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Da adolescência é de onde começa a sua narrativa – comigo compartilhada. No efervescer dos hormônios e no aquecimento das experiências afetivas da puberdade, o jovem, atualmente com 22 anos de idade, “por um descuido”, deixou, de maneira visível, uma conversa sobre seus desejos e preferências sexuais tecida por meio das redes sociais e da internet no computador de sua casa. A irmã de Benjamim encontrou “a bendita conversa” no computador. “Foi ela, minha irmã, a primeira pessoa lá de casa a saber, assim, de verdade, da minha orientação sexual: eu sou um homem gay”, conta.

De acordo com Benjamim, a promessa da irmã, “de não falar com ninguém sobre o que leu”, em poucos dias, foi quebrada: “Eu estava conversando com um menino, pela internet, já a algum tempo. E aí combinei com ele de nos encontrarmos em uma sorveteria e minha irmã sabia disso. Quando eu estava lá na sorveteria com o menino, do nada, meu celular começou a tocar. Era a minha mãe. No telefone, ela xingava, falava que eu tinha perdido o juízo, me perguntava se eu não tinha vergonha e eu entendi, na hora, que minha irmã tinha falado com ela…”.

A partir de tal acontecimento, “começou a confusão”. Confusão que consistiu em ao menos três ocorridos: a conversa com o pastor da igreja; a resposta agressiva do pai; o adoecimento da mãe.

Ao tomar conhecimento da atração erótica do filho por pessoas do mesmo sexo, a mãe de Benjamim lhe disse que: “se o pastor da igreja falar que está tudo bem, que isso é normal, que é aceitável”, ela, também,“aceitaria”. Na referida conversa, em coerência com o posicionamento pentecostal evangélico dominante no Brasil, o pastor apresentou a concepção da homossexualidade como pecado e ressaltou a reprovação divina à “prática” dos relacionamentos afetivo-sexuais entre sujeitos de sexo semelhante.

Do latim acceptare, aceitação é um termo linguístico que significa, literalmente, receber de boa vontade. Quanto à Deus, tenho eu minhas convicções a respeito de Seus critérios de aceitabilidade de algo ou de alguém – e que não são tratáveis nesse texto –, mas, quanto à mãe de Benjamim, notadamente, na adolescência do rapaz, não foi com boa vontade que ela recebeu a informação de que o filho se sentia sexualmente atraído por um garoto.

“ O que eu mais pedi pra ela, naquele momento, foi para não contar pro meu pai”, relembra o jovem. Pedido destinado à mãe que não fora atendido. “Um dia, quando cheguei da aula, já tarde, minha mãe e meu pai estavam do lado de fora da casa e eu achei estranho… Fiquei até preocupado, pensei que alguma coisa tinha acontecido… Mas aí, quando me aproximei, eles não falaram comigo. Fiquei sem entender. Mas logo depois imaginei… Passou um pouco e meu pai voou pra cima de mim. Ele chorava, tentava me bater e dizia ‘só me fala o porquê; só me fala o porquê!’”. Benjamim e o pai ficaram sem se falar por alguns anos…

A mãe de Benjamim, “na época em que tudo aconteceu”, sofria de dores nas articulações e de enrijecimento da musculatura. “A causa era desconhecida e, de um jeito muito complicado, difícil, ela foi piorando e falava que era de tristeza, que era pela minha sexualidade…”.

Ainda que, “por dentro, às vezes”, envolto em sentimento de culpa, o adolescente prosseguia nos estudos, insistia em “conhecer pessoas” por meio das redes sociais e em se “esforçar bastante” no curso profissionalizante de montagem e manutenção de computadores e no preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): “Eu sei que ela sentia dor, mas era para tentar me atingir. Às vezes eu ficava com raiva, as vezes eu ficava triste e preocupado… Mas eu passava o dia inteiro fora de casa. Estudei e trabalhei muito, desde novo! E acho que à medida em que ela foi vendo que minha vida não ía parar, ela foi melhorando…”.

Desperta-me a atenção o fato de que os acontecimentos vivenciados por Benjamim na adolescência, quando da declaração de sua orientação sexual para a família, não são incomuns. Porém, a resposta do garoto à época foi incomum: Benjamim, ainda que às vezes capturado pelas manifestações sintomáticas de sua mãe, sustentou o seu próprio desejo e usou do tempo “fora de casa” para se preparar para a vida acadêmica e profissional – “eu saía de casa por volta de seis da manhã, Hugo, e chegava quase meia noite – estudava, fazia estágio e curso profissionalizante… Isso fez com que, além de eu conhecer muita gente, eu pudesse entender melhor, refletir sobre as coisas que estavam me acontecendo…”.

“De acordo com os dados disponibilizados pelo Grupo Gay da Bahia, em 2017, de janeiro até agosto, por exemplo, têm-se registradas 21 ocorrências de autoextermínio de LGBT no Brasil”

Infelizmente, recursos de enfrentamento como os que foram utilizadas por Benjamim não estão às mãos de todos os adolescentes gays do país e do mundo. De acordo com os dados disponibilizados pelo Grupo Gay da Bahia no site homofobiamata.wordpress.com, em 2017, de janeiro até agosto, por exemplo, têm-se registradas 21 ocorrências de autoextermínio de LGBT no Brasil.

A institucionalização da homolesbobitransfobia, bem como a sistemática violação de direitos à qual pessoas LGBT estão expostas, contribuem, significativamente, para que jovens gays, bissexuais e/ou trans cheguem até o suicídio – se não o ato propriamente dito, ao menos sua ideação. Especificamente sobre essa delicada questão e seu atravessamento religioso na adolescência, é prudente mencionar o filme “Prayers for Bobby” (Russel Mulcahy, 2009), baseado em fatos reais e sensível aos impactos do preconceito e da discriminação homofóbicas na subjetividade juvenil.

Por esse engodo da religião que, ao invés de conectar, promove rupturas mortíferas, Benjamim não se deixou levar. Ao contrário. Por meio de seus estudos, máquinas e cálculos, o jovem lançou-se na construção de um projeto de futuro e, enquanto sonhava, permitiu-se desejar. Atualmente, Benjamim afirma sentir-se “em paz” com a própria fé e com a vivência da sexualidade distanciadas das organizações evangélicas.

O jovem, graduado em Sistemas de Informação e contratado por uma empresa de desenvolvimento de softwares internacional, diz acreditar em Deus e, “exatamente por isso”, não frequenta nenhuma igreja ou instituição religiosa. “Essa experiência da adolescência mexeu muito comigo. Ali eu percebi uma distância muito grande entre o discurso das pessoas da igreja e o que elas praticam, de verdade. Os meus líderes, por exemplo, falavam sobre amor o tempo todo, mas quando eu me vi numa situação em que esse amor podia ser demonstrado, não foi isso que encontrei”, avalia Benjamim.

A reaproximação do pai

Conforme o relato de Benjamim, desde o ocorrido naquela noite em que o pai tentara lhe bater, a comunicação entre eles se rompeu. Ainda que “morando na mesma casa”, a troca de palavras entre o jovem e o seu pai, praticamente, não existiu até que um inesperado fato proporcionou a reaproximação. Dois ou três semestres antes da conclusão do curso de graduação, o rapaz começou a emagrecer, a ter crises intensas de febre e a sentir-se “muito fraco e com o corpo dolorido”.

O quadro agravou-se ao ponto de a internação hospitalar tornar-se necessária. Entre exames, testes e avaliações médicas, o diagnóstico de tuberculose ganglionar em decorrência da infecção pelo vírus HIV e a sua falta de tratamento foi realizado. Ainda na internação, a medicamentação com antibióticos e, também, com antirretrovirais foi iniciada e, na percepção do jovem, não apenas seu próprio corpo foi tratado: “algo, ali, mexeu com o meu pai”.

Esse “mexer” do pai de Benjamim resultou, dentre outras coisas, na procura do mesmo por atendimento psicoterápico: “ – Hugo, meu pai foi fazer terapia!”, exclamou o rapaz. De acordo com o jovem, seu pai “não se sente bem, até hoje, quando escuta comentários ou vê cenas de pessoas do mesmo sexo se beijando ou coisa assim; mas hoje já é possível trocar algumas palavras com ele, entrar no carro e ir junto até algum lugar, ele sabe que eu namoro e na minha formatura ele estava lá e o meu namorado também”. Benjamim acredita que “uma convivência plena” entre os seus pais e seu namorado, por exemplo, “nunca vai acontecer”. Mas sente-se “contente” por encontrar ao menos “o respeito” advindo dos pais, nesse momento.

Passada a internação e iniciado o tratamento ambulatorial com os medicamentos antirretrovirais, Benjamim se abriu para a possibilidade de “conhecer alguém”, “tentar começar um relacionamento”. “Aí”, um aplicativo desenvolvido para Smartphones “ajudou”, (risos).

Por meio da tecnologia, o garoto localizou um rapaz no mesmo campus da universidade em que estudava e, a princípio, “com muita timidez”, começaram a conversar e a sair juntos. “Foi em setembro que a coisa mais formal aconteceu… Nós estávamos no ônibus, voltando da faculdade, e ele disse que gostaria de perguntar algo. Eu já tinha falado com ele sobre as minhas dificuldades de relacionamento com os meus pais por causa da orientação sexual, falei com ele sobre ser soropositivo e me surpreendia muito o quanto essas coisas não impediam ele de estar comigo. Aí, no ônibus, ele perguntou: você quer namorar comigo?”, relembra, emocionado, Benjamim. “ – Sim!”, foi a resposta, disse sorrindo.

Ao referir-se ao namorado como alguém que o ajudou a “superar a neura de que eu era uma bomba-relógio”, foi com muita beleza que Benjamim contou-me o quanto seu “amor” contribuiu para que ele entendesse que o HIV não era o fim da vida e nem o encerramento das possibilidades. Enquanto casal sorodiscordante, Benjamim e o namorado, regularmente, realizam exames médicos e são acompanhados por uma equipe interdisciplinar do Sistema Único de Saúde especializada no tratamento de pessoas HIV+. O jovem comemora o fato de ter a sua carga viral indetectável, “sinal de que os remédios têm dado certo” e, também, o fortalecimento progressivo de seu sistema imunológico.

Para o futuro, Benjamim planeja, “ainda nesse ano”, sair da casa dos pais e mudar-se para o próprio “cantinho” e se preparar para a seleção do mestrado em uma área que muito tem lhe despertado a atenção: “o tratamento das informações espaciais”. Causado pelas questões socioambientais, o jovem pensa em prosseguir com a pesquisa que resultou em seu trabalho de conclusão de curso da graduação, que aponta para a sistematização de informações relacionadas à desastres e catástrofes naturais.

A fim de finalizar esse texto do Projeto Diadorim, autorizo-me a apresentar à Benjamim um conhecido trecho do “Grande Sertão: Veredas”, a respeito do amor:

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. (ROSA, 1956/1994, p.439)

Que lhe seja Benjamim, o mais amado, o amor fonte de saúde!

 

Hugo Bento é psicólogo (CRP 04/39401), mestre em Psicologia / Processos de Subjetivação pela PUC Minas (2016). Foi bolsista de mestrado pela FAPEMIG e tem se dedicado ao estudo e à pesquisa das questões referentes ao gênero e à sexualidade na perspectiva psicanalítica. Publicou o livro “O desejo de filho na adoção homoparental”, fruto de sua dissertação de mestrado, e atua em consultório particular de Psicanálise e em políticas públicas destinadas à adolescentes e jovens em MG.

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Léo Barbosa • 05/09/2017


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