Extermínio de jovens negros , Carlos Latuff

Entregamos o jogo, e deixamos morrer

“Porque a terra se fechara sobre si mesma, abandonando a costa sem alma”. 

Edouard Glissant

Por Ronilso Pacheco, especial para o História Incomum

O último sábado de Novembro, no Rio de Janeiro, foi marcado por um episódio humanamente cruel, e politicamente emblemático.  Wilton Esteves, Wesley Rodrigues, Cleiton de Souza, Carlos Eduardo e Roberto de Souza, todos jovens, negros e pobres, com idades entre 16 e 25 anos, foram assassinados por quatro policiais militares, que dispararam assustadores 111 tiros contra o carro onde estavam. Os policiais imaginaram que estavam metralhando um carro ocupado por bandidos, segundo suas afirmações. Fuzilaram cinco jovens sem qualquer envolvimento, felizes por pequenas conquistas como primeiro emprego e o primeiro celular comprado com o próprio dinheiro.

Essa barbaridade é humanamente cruel, porque revela a perda de qualquer parâmetro razoável que sirva para dar um limite a uma ação policial, enquanto braço armado do Estado e detentor do uso, legítimo, da força. Imaginar que o choque com tamanha investida deve-se ao fato de serem jovens e serem inocentes. Assusta imaginar que seria “tolerável” se os policiais estivessem certos na impressão, e o carro estivesse cheio de bandidos de fato. Humanamente cruel porque no dia seguinte, ou nos dias que se seguiram ao fato, a vida na cidade seguiu normalmente. Um ou dois atos públicos, nenhum com mais de mil pessoas, e tudo vai se ajustando como mais um caso horrível que envolve policiais.

A sociedade brasileira aceitou o extermínio de jovens negros como uma rotina incômoda, mas não a ponto de exigir o seu fim.

Mas também é politicamente emblemático, porque é, pelo absurdo, o auge da demonstração da falência de toda uma política de segurança no Brasil, direcionada para as favelas e comunidades de periferias das cidades no país. A especificidade das mortes, que está concentrada no grupo jovem-negro-pobre, já não comove nem incomoda. Mata-se de muitas maneiras, e a Polícia Militar é quem mais mata. Mas a política de segurança não muda, o modelo permanece e as formas de matar também permanecem. É politicamente emblemático porque a escolha do tom das explicações do governador do Estado, ao se apressar a negar o episódio como racismo e afirmar como um erro, mostra, como uma narrativa que se depreende das entrelinhas, que a ação dos policiais é coerente explicitamente com um modus operandi institucional. Isso quer dizer que não há problemas com a maneira como é feito, o problema é apenas errar o alvo.

A sociedade brasileira aceitou o extermínio de jovens negros como uma rotina incômoda, mas não a ponto de exigir o seu fim. Como a terra, no romance de Edouard Glissant, nos fechamos em nós mesmos e abandonamos a costa sem alma, sem sensibilidade, sem qualquer perturbação. É um genocídio, embora não como o empreendido pelo nazismo. É um genocídio “fracionado”. Ao longo dos anos, por décadas (séculos, trazendo a escravidão para o assunto), matamos milhares, milhões de negros, principalmente jovem. E é bom que se diga que isso, nessa proporção, não seria possível sem que o Estado fizesse parte do processo.

Os dados estão disponíveis na rede, nos mais variados documentos. Não vale reproduzi-los aqui, para ganhar tempo. Sejam oficiais (Secretaria de Segurança Pública, Ministério da Saúde, etc.), sejam de Organizações Não Governamentais (Anistia Internacional, Justiça Global, etc.) ou mesmo documentos independentes que são referência para ambos (como o Mapa da Violência), nenhum deles, mesmo se quisessem, seriam capazes de negar a evidência de que os negros são as maiores vítimas de homicídios e os mais encarcerados. Há Estados em que a diferença entre mortos brancos e negros era digna de uma intervenção política na gestão da segurança pública. Pernambuco, em 2014, a diferença é de 135 brancos para 2.260 negros assassinados, segundo o Mapa da Violência. Alagoas, 68 brancos para 2.046 negros. Como isso pode ser razoável, e simplesmente um dado?

É um genocídio “fracionado”. Ao longo dos anos, por décadas (séculos, trazendo a escravidão para o assunto), matamos milhares, milhões de negros, principalmente jovem.

Os nossos campos de concentração atuais estão aí, às margens da cidade que cresce excluindo, aumenta na medida em que diminui os seus indesejáveis. Favelas, comunidades e verdadeiros guetos rigidamente controlados controlam os sujeitos permanentemente tornados suspeitos. Com toda sua energia, potência e sexualidade efervescente, uma excitação que ultrapassa o campo do erótico (é mais que isso, é desejo), os jovens serão sempre os maiores alvos. Mas não alvos pela violência desenfreada, conforme querem sempre nos fazer crer. Alvos de uma violência administrada, cuidadosamente gestada para quem devem ser as vítimas.

A situação é essa. O Estado é assassino mesmo. E a grande mídia é o arcabouço racista da mesma política assassina. E o “racista” aqui não beira nenhuma conotação militante, é uma constatação mediante a observação de uma escolha bem pensada sobre as vidas que importam e as que não importam. De erro em erro, de guerra em guerra, a juventude negra vai morrendo, blindada pelo silêncio, o estigma e a invisibilidade midiática.

 

Ronilso Pacheco é graduando em Teologia na Puc-Rio, interlocutor social no Viva Rio e do Coletivo Nuvem Negra.

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Léo Barbosa • 15/12/2015


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