dia dos pais

Feliz Dia dos Pais, pra quem?

Hoje, um amigo me mandou uma mensagem: “sério, cara, eu queria ter um pai como todo mundo, mas não tenho. Eu acho que se eu tivesse um pai eu não iria passar o que eu já passei. Deve ser muito legal você ter um pai ao lado, brincando, jogando bola, e muitas outras coisas. Deve ser show, você vir e dar um abraço no seu pai!”. Nossa conversa se estendeu, mas não cabe citar algo a mais neste texto. O fato é que, além dele e além de mim, o Conselho Nacional de Justiça estima, segundo dados do Censo Escolar 2011, que “cerca de 5,5 milhões de estudantes brasileiros não possuam o nome do pai na certidão de nascimento”.

Estes dados revelam algo mais profundo que apenas questões jurídicas, como: ter direitos patrimoniais, à herança e à pensão alimentícia. De acordo com o CNJ, as pessoas que procuram ter o nome do pai em sua certidão de nascimento buscam reconhecimento afetivo por meio do registro.

Durante minha adolescência tive uma discussão com minha mãe e, no ápice da minha raiva adolescente, eu disse que ela não havia cuidado direito de mim e de meus dois irmãos. Lembro que eu cobrava sua presença em casa, na minha rotina. Mas a única coisa que ela podia fazer era trabalhar para sustentar os três filhos, sozinha, enquanto minha avó cuidava de nós. E isso eu entendi quando coloquei a minha cabeça no travesseiro e vi o tamanho do erro que eu havia cometido. Pedi perdão. Conforme eu crescia, fui conhecendo outros como eu. Meninos e meninas que almejam afeto de alguém que, por algum momento, encontrou um motivo para se ausentar da vida que também havia gerado.

Até hoje me lembro de dois presentes que ganhei do meu pai, os únicos. Um carrinho vermelho, pequeno, digno de uma caixinha do Kinder Ovo, e uma camiseta do Pateta, um dos meus personagens preferidos na infância. Creio que o carrinho ainda esteja guardado em alguma caixa na casa da minha mãe; a camiseta nem sei qual foi o seu destino. Mas o momento foi marcante, porque foi exatamente o que meu amigo expressou em sua fala – “deve ser muito legal você ter um pai ao lado, brincando, jogando bola, e muitas outras coisas”. Aquele dia dos presentes foi um dia especial.

No ápice da minha juventude, aos 23 anos, em 2010, fui pego de surpresa. Da noite para o dia, por uma série de fatores, que peço perdão por não contá-los, pois envolvem mais pessoas, fiquei com a guarda de duas crianças. Um susto. Um desafio. Naquele momento eu precisei me tornar o que eu sempre quis ter: um pai. Os ensinei a me chamar de tio, pois sempre acreditei na restauração da família. Aliás, algo muito bonito que vejo até hoje. Durante cerca de um ano, eu, duas crianças, de um e dois anos, e um cachorro, nos reinventamos como família, com a presença de amigos que foram pilares extremamente necessários durante este tempo.

O pai delas também havia partido, assim como o meu. A mãe delas buscava meios pra se fortalecer à sua maneira, assim como a minha da maneira dela. E eu tinha um desafio em mãos: sanar minhas feridas por falta de afeto e amenizar as das crianças. Tivemos um intensivo sobre a fragilidade da vida. Aprendemos juntos sobre a delicadeza dos dias. Choramos e sorrimos. E nesse turbilhão de acontecimentos íamos nos completando.

Enquanto eu buscava meios para ajudá-los a compreender a ausência dos pais, principalmente a paterna, que era algo quase inexplicável – embora tivessem o nome dele em seus documentos, algo que revela que o nome num papel não significa muito no “mundo dos afetos” – era inevitável ter que lidar com a ausência causada pelo meu pai. Com isso, aprendi que ele já havia perdido muita coisa antes mesmo de me ter e me perder. Entendi que eu não poderia deixar a dor devastar minhas emoções e me levar pra longe na mesma trilha que ele seguiu, embora, assim como ele, eu já me encontrasse em pedaços. Algo inevitável pra quem vive.

Entendi que ser “humano” é ser quebrado. Duas crianças me ensinaram que as marcas são inevitáveis e elas revelam muito de nós. Elas também me mostraram que juntar o que se quebrou é uma tarefa árdua. Que o desafio é dar sentido ao que foi montado com pedaços novos e velhos, e que isso é difícil e doloroso. Mas é possível!

Meu amigo tem apenas 15 anos. Durante nossa conversa ele disse que eu seria um ótimo pai. Fiquei alguns minutos sem saber o que responder. Apaguei várias vezes a mensagem que eu escrevia em resposta à sua afirmação. Enfim, respondi algo clichê. Em poucas palavras tentei dizer um obrigado, meio sem graça. Mas, agora, meu amigo, ao me lembrar dessa história, tenho a resposta: sim, um dia nós seremos. Esse dia que questionamos hoje, daqui a alguns anos, diremos que também é nosso.

Léo Barbosa • 09/08/2015


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