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Memória viva

A tradição oral na Comunidade de Arturos e o empenho para a preservação dos costumes de seus ancestrais

O Quilombo Arturos começou com um sonho de Camilo Silvério, angolano traficado para o Brasil, e se perpetuou com seu filho Arthur Camilo Silvério. As terras adquiridas por seu pai em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte (BH), Minas Gerais (MG), graças ao dinheiro ganho com os trabalhos pós-abolição, tinha um único objetivo: dar aos filhos condições de uma vida de liberdade, união e religiosidade. Camilo faleceu, e Arthur cumpriu com a promessa feita ao pai: uniu seus descendentes em torno da herança cultural de seus antepassados trazidos da África nos navios negreiros. E assim nasceu a Comunidade de Arturos, atualmente com 400 moradores.

Um povo que preserva seus costumes por meio da tradição oral encontrou nas canções, contos, provérbios e encenações uma forma de transmitir e manter vivos os ensinamentos de seus ancestrais. Contam de seus antepassados, dizem seus nomes, como se estivessem os invocando, mas na verdade a singeleza de tal façanha é a maneira que encontraram de mantê-los vivos dentro si. Um grupo de jovens encena a história de Arthur mesclada à história de Zumbi dos Palmares, dois heróis imortais. Um dos coordenadores da comunidade e neto de Arthur, José Bonifácio da Luz, de 65 anos, conhecido como Bengala, assiste e se emociona, não consegue conter as palavras e diz: “não deixem Arthur morrer”. José encontra na memória um lugar onde seus mortos possam viver.

Bengala se preocupa com o envolvimento dos jovens e o interesse deles em preservar a tradição. “Quando era mais novo, eu achava que não iria conseguir carregar uma responsabilidade tão grande. Entendo que eles passem por isso também, mas os tempos mudaram e a forma que lidam é diferente”, diz. Ele entende que os jovens estão reinventando, de acordo com o que sua geração oferece, as maneiras de contarem as histórias. “Enquanto ensaiam, procuraram os mais velhos para conhecer suas raízes, dessa forma a tradição se faz conhecida”, afirma o coordenador.

Mário Brás da Luz, 84 anos, patriarca da comunidade e filho de Arthur, herdou da irmã a espiritualidade que o levou a ser o “benzedor oficial” do quilombo. Sua casa nunca está vazia; gente do Brasil todo o procura na esperança de um milagre. A devoção a Nossa Senhora do Rosário, a santa defensora dos negros, também faz parte de um legado de Camilo a Arthur, de Arthur aos seus filhos e deles a toda comunidade. Seu Mário, como é conhecido, explica que sua função é estar disponível para quem aparecer. “Preciso ser carinhoso e não ter preguiça. Se eu estiver almoçando e aparecer um menino pra eu benzer, tenho que atender!”, afirma. Para ele sua função é um dever: “Deus abençoa minhas palavras e isso é muito importante pra mim. É um prazer ver as pessoas sendo curadas, faço isso com amor”, diz. Ele também explica que os benzedores estão acabando e, dos 25 que havia na comunidade, hoje, restam apenas três. Ele se preocupa com o desinteresse dos jovens pelo ofício e diz: “Os jovens de hoje só lembram de Deus quando trupica ou falam palavrão.Deitam igual uma tábua e levantam igual a um pau”, reclama o patriarca. Mas segue acreditando que terá um sucessor: “um dia eu também não acreditei”.

Antônio Maria da Silva, ‘seu’ Antônio, tem 79 anos, filho de Arthur, assim como o ‘seu’ Mário, também faz parte do conselho de anciãos do quilombo. Homem piedoso, de exímia espiritualidade, ama uma conversa e se orgulha de saber cada detalhe da história de Contagem, sua cidade natal. Ele reclama de algumas práticas que foram sendo deixadas devido à agitação do dia a dia e do ativismo exigido para o cuidado de um lar. “Hoje todos precisam trabalhar fora, vivem correndo, não nos pedem mais benção, apenas gritam da rua: benção tio Antônio”, diz. Ele se lembra do sofrimento de seu pai, e conta um episódio que marca fortemente a memória dos Arturos. “Quando meu avô morreu, meu pai foi proibido de sair da fazenda para sepultá-lo e apanhou por insistir. Então, ele reuniu a família aqui para não ficar longe de ninguém. A família é a base tudo”, afirma seu Antônio. Arthur deixou aos seus filhos a responsabilidade de manter a família unida e de ensinar aos seus jovens o respeito às tradições e aos mais velhos, e o ancião não mede esforços para que isso permaneça.

Cristiane Luz, 32 anos, faz parte do grupo Filhos Zambi, criado com intuito de contar a história do quilombo e dos negros. Interessada pela história da comunidade e pela divulgação da tradição, ela sente nos ombros a responsabilidade de manter essa memória viva. “O medo faz parte e é necessário, isso nos ajuda no esforço para manter nossas origens”, afirma. Ela também se apega à sua fé: “Por mais que alguém se afaste, Nossa Senhora busca, não tem como se esconder. Por mais que a pessoa não esteja no congado, por exemplo, bateu a caixa, algo mexe com você. Está no sangue!”, explica Cristiane. Ela fala da necessidade de escutar os anciãos: “sem eles não conhecemos nossa história”, e diz que fará o possível para que ela permaneça. Para o seu companheiro de grupo, Thiago dos Santos, 28 anos, a confiança dos anciãos neles é vista na emoção que os toma em cada apresentação. “Eles se emocionam em todas as apresentações, não só por lembrarem a história, mas por verem nosso esforço em manter as tradições”, afirma.

Por mais que hajam conflitos devido à diferença de idade, uma coisa é certa: eles amam seu povo, sua cultura e tradição. Carregam em si seus mortos como se estivessem vivos, porque neles encontram suas raízes e os princípios que norteiam suas vidas. Carregam seus mortos no último lugar em que podem viver, em suas memórias. E ali, permaneceram por muito tempo!

CulturaHistóriaJornalismo

Léo Barbosa • 11/12/2014


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