Foto: Bruno Itan
2

Nossos mortos não passarão

Foto: Bruno Itan

Nos últimos meses os moradores da Favela Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, têm sofrido, mais uma vez, com intensos tiroteios entre a polícia “pacificadora” e os traficantes. Os moradores do aglomerado de casas têm encontrado nas redes sociais uma maneira de pedir socorro. Em um dos posts no Facebook, no dia 14 de agosto, um morador, relembrando a morte de Eduardo Jesus Ferreira, um garoto de 10 anos, escreveu: “nossos mortos não passarão”. A frase nos leva a pensar no cotidiano da favela e na nossa falta de empatia. O que para nós é só mais uma notícia, para eles é sofrimento. Aqueles que com o tempo esquecemos, para eles são lembranças vivas, saudade que, segundo o Rapper Emicida, é “sentir fome com a alma”.

Recentemente o morador Cleber Araújo, 39 anos, escreveu uma carta intitulada “Socorro, estamos morrendo aqui”, publicada pela Agência de Notícias da Favela – ANF. Nela, ele retrata a angústia dos moradores. Segue trecho:
“O grito desesperador das crianças, a impotência dos idosos sem poder correr com lentidão dos seus frágeis corpos cansados, a ânsia das mulheres grávidas no anseio de proteger a si e à vida que está em seu ventre, o pânico de quem está na rua por qualquer que seja o motivo, quer seja para estar no comércio, indo ou voltando da escola, brincando ou mesmo indo ou voltando do trabalho, é algo extremamente assustador…”. Texto na integra aqui.

As histórias de hoje visam retratar, lembrar e dar voz a quem foi esquecido por alguns. Estes, não passarão.

Primeiro tiros, depois perguntas

Era o segundo dia de festa julina na favela, 27 de julho de 2014, e o adolescente Izaqueu Carvalho, hoje com 15 anos, saiu para encontrar com uma amiga e seguir para o arraiá. Estava começando a anoitecer. O dia estava nublado e chuviscava. O adolescente vestia um casaco verde com um capuz que cobria sua cabeça. Seguia por um dos inúmeros becos do Complexo quando foi surpreendido por policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE.

Primeiro tiros, quatro no total, depois perguntas. O adolescente foi atingido na mão, no braço, na perna e em um dos olhos, o que levou a perda da visão. “Eu não vi nada, só senti o impacto. Na hora que eles atiraram eu já cai no chão, tentei levantar eles atiraram de novo”, conta. “Eu tentava tirar o casaco, mas eles fechavam, acho que não queriam que ninguém me visse. Ficavam perguntando seu eu bebia, fumava, se sabia onde os caras entocavam a droga. Eu só conseguia dizer que eu tava com dor e que não era pra eles me matar, que minha mãe tava na igreja e meu pai trabalhando”.

“Eles rasgaram a minha roupa e saíram me arrastando pelo beco, eu reclama que tava doendo. Fiquei consciente o tempo todo.”

“Eu e meu irmão corremos na delegacia e na UPP (Unidade de Policia Pacificadora), ninguém sabia de nada, eu não aceitei isso! Eles me responderam que quando se trata de BOPE a delegacia e a UPP ficam de fora. Disseram que podiam tentar ligar e descobrir pra onde ele tinha sido levado, fiquei esperando 20, 30 minutos, nada! Disse pro meu irmão: vamos embora daqui, porque se acontece dele morrer o negócio deles é sumir com o corpo, a gente não pode confiar!”, conta a tia, que acompanha Izaqueu a pedido da família. Horas depois encontraram o garoto num hospital próximo a comunidade.O pai, Ezequias de Oliveira Carvalho, e a tia, Armandina Carvalho da Silva, foram atrás do garoto, a notícia já corria pelo Complexo. As poucas informações sobre o paradeiro dele culminavam no passar do tempo. E tempo, após situações como essa, é determinante de vida ou morte para quem vive na favela, explica Armandina.

27 de julho de 2014 é um dia que não passa, pelo menos para Izaqueu e sua família, e os detalhes desse dia o garoto faz questão de contar: “Eles rasgaram a minha roupa e saíram me arrastando pelo beco, eu reclama que tava doendo. Fiquei consciente o tempo todo. Depois de um tempo sendo arrastado, eles invadiram a casa de uma mulher e quebraram um cabo de vassoura pra ‘futucar’ a minha perna e tirar a bala. Depois disso me carregaram até o camburão, me jogaram lá igual a um chiclete sem gosto que as pessoas jogam no chão”, conta.

Mais de um ano depois do ocorrido o adolescente e seus familiares ainda esperam soluções para o caso. A bala ainda está alojada na cabeça e às vezes causa dores, conta o adolescente. A tia explica que é necessário fazer uma cirurgia para a retirada do projétil e, também, do olho para que seja colocada uma prótese ocular, que custa cerca de mil Reais. A família não dispõe do valor e aguardam do Estado “ao menos a lente que o menino precisa usar”.

Izaqueu não sabe dizer como fará para reinventar sua adolescência, mas num turbilhão de emoções e sentimentos que, como ele diz, trazem revolta, o garoto ainda se agarra ao sonho de um dia ser marinheiro.

A palavra arrancada do coração
“Nunca imaginei que ia perder minha mãe de um modo tão horrível”, conta Maynara de Moura, 16 anos, filha de Elisabeth Alves de Moura Francisco, 41 anos, morta num tiroteio entre a polícia e os traficantes no Complexo do Alemão, em abril deste ano. O tiro que acertou o rosto de Elisabeth foi fatal e o mesmo que atingiu a filha, que só percebeu quando foi avisada pelo irmão que o braço estava sangrando. É como se o desespero de ver a mãe caída no chão tivesse sido a anestesia para encarar aquele momento.

Além de Maynara, Elizabeth tinha mais dois filhos, Miguel, de 6 anos, e Maykon, de 21. Hoje, os três, junto com o pai, Carlos, buscam se reinventar após a tragédia. Mas a dor é latente, a casa está vazia, “muitos sonhos foram apagados”, explica Carlos. Miguel presenciou tudo o que aconteceu e, enquanto sua mãe era socorrida, o garoto corria inúmeras vezes para quarto e pedia a Deus para que a mãe acordasse, em seguida voltava para a sala para ver se ela havia levantado, conta a irmã. Maykon preferiu não dizer nada.

Tiraram dele uma palavra que todo mundo gosta de falar: mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe!”.

Carlos, que trabalha como motorista de van, agora se vê na condição de ocupar lugares que antes eram da esposa, o que tem sido um desafio diário. “Era ela que comandava tudo. Três dias depois do sepultamento dela, meu filho teve uma crise de bronquite, olhei na prateleira dos remédios e não sabia o que fazer. Ela sempre falava: ‘cuidado porque o remédio pra tosse ele só pode tomar uma vez só’. Eu fiquei desesperado”, conta. As compras da casa eles sempre faziam juntos, sem lista, “porque ela sempre sabia o que comprar”, se lembra. “Eu fiquei quebrado. Depois do acontecido fui fazer compras no mercado e, ali, eu desabei. Comecei a chorar. No corredor apagou tudo. Eu ficava perguntando a ela: o que eu vou fazer aqui agora? O gerente precisou me acolher”.

Miguel não desgruda do pai, interrompe a conversa inúmeras vezes, no fundo ele sabe qual é o assunto e não quer sair de perto. O que comove é que todas as interrupções do garoto são sempre para contar, em detalhes, como a mãe havia morrido. Carlos explica que o filho está fazendo terapia, mas desabafa: “é difícil olhar pra ele, porque calaram a voz dele. Arrancaram a palavra mãe do coração dele. Eu fico imaginando o que deve ser pra uma criança de 6 anos não poder mais falar. Proibiram ele de falar. Tiraram dele uma palavra que todo mundo gosta de falar: mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe. Mãe!”.

Todas as reportagens feitas em abril sobre a Elisabeth excluíram sua principal característica. Seguindo as regras de sempre citaram seu nome, idade e causa da morte. Ela era uma mulher sonhadora e batalhava pra realizar os seus sonhos, ponto forte nas lembranças de Maynara: “minha mãe era uma mulher guerreira, sempre lutou com tudo pra ter suas coisas, pra ter seu canto”. Ela e Carlos estavam construindo na laje da casa um quarto para os dois: “ela já tinha o sonho na cabeça dela, tudo planejado. Eu fico me lembrando e escrevendo tudo, cada detalhe do que ela falava”, conta o marido.

Ele anota tudo porque tem como missão terminar o que eles começaram juntos, com detalhes que sempre lembrarão Elizabeth. Assim, o amor que sentiam um pelo outro se faz presente em cada cômodo da casa e, também, o afeto materno é lembrado num coração, que segundo Carlos, foi amputado.

 

Complexo do AlemãoFavelaHistóriaJornalismoReportagemRio de Janeio

Léo Barbosa • 19/08/2015


Previous Post

Next Post

Comments

  1. josi 04/09/2015 - 16:50 Reply

    Conheci Bete ainda solteira, éramos da mesma igreja. Pude acompanhar sua história de vida, mesmo eu tenho saído do morro e descendo pra o asfalto, ela e Carlos eram meus amigos. O Carlos está numa fase muito difícil, já teve muitas perdas na vida e de maneira terríveis, porém, nada disso fez calar sua voz de adorador, e como ele adora! Quando ele canta, VC sente que aquela canção vem das profundezas da alma…Bete faz muita falta, aquele sorrizão encantador deixou a todos mais pobres! O poder público quer acabar com o tráfico, que eles deixaram correr solto por anos e anos a fio , e querem fazer isso numa tacada só. Não vão conseguir, não tem estratégia, não passam confiança pra o povo, já que estiveram omissos por tanto tempo. Ninguém quer ver o tráfico mandando e demandando na favela, mas ninguém quer ver tbem inocentes serem mortos sem piedade. Estratégia, poder público, inteligência, respeito e mais amor por favor!

    • Léo Barbosa 14/09/2015 - 17:40 Reply

      Josi, concordo com vc plenamente no que diz respeito ao Estado. Fico feliz por ler palavras tão bonitas sobre a Bete e o Carlos. Abração

Deixe uma resposta

Your email address will not be published / Required fields are marked *