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O caminho é o amor

Saímos cedo a caminho de dois abrigos que cuidam de meninas vítimas de exploração sexual. Estava ansioso, a expectativa de conhecer os projetos, ouvir as histórias e, acima de tudo, o simples fato de estar ali, foi suficiente para me fazer dormir pouco e ser recompensado pelo nascer do sol nordestino que apazigua a alma. A Kombi segue seu destino e quanto mais nos aproximamos dele trocamos o asfalto pela areia num caminho esburacado. Estacionamos, logo avisto a casa. Suas diversas cores parecem sinalizar o motivo pelo qual ela foi criada, “restaurar vidas e renovar a esperança”, diz o slogan. Um homem nos apresenta o projeto e suas instalações. O lugar aconchegante oferece o descanso que outrora foi roubado. Ele nos conta algumas histórias que espero transmitir com a mesma intensidade da conversa e incomodá-los assim como eu também fui.

*Sheila, 14 anos, era mantida como escrava doméstica por sua suposta mãe. As agressões eram constantes e insuportáveis. A menina carregava nos ombros o peso da escravidão. Seus dias se resumiam a faxina e aos cuidados da casa. Foi obrigada a trocar os cadernos e os livros por vassouras e rodos. Não tinha amigos porque não podia sair de casa, e ali não lhe faltavam tarefas “para brincar”.

A mãe adota gêmeos e vende um deles por R$1.800. Sheila, indignada com a venda do bebê e cansada das agressões, se aproveita de um descuido e foge. Procura uma delegacia e conta sua história. Chorando, relata as violações que sofria. Cada palavra lhe cortava alma. O coração pesado pelos traumas buscava meios de se resignar ao momento na busca por justiça.

Durante as investigações os policiais descobriram que seus documentos eram falsos, assim como os dos gêmeos, que nessa altura do campeonato já haviam sido resgatados. Mais um golpe na vida, a garota terá que conviver com a angústia de não saber suas origens. Com a dor por não saber de onde veio.

Hoje Sheila mora em um ambiente saudável, mas escondida, pois corre risco de vida. Os envolvidos na história são “peixes grandes”. Sua suposta mãe é assessora de político e responde em liberdade. A mulher que comprou o bebê é filha de político. A resolução da história segue a passos lentos numa terra que parece não ter lei. Enquanto o processo segue morosamente, Sheila vive no anonimato.

Em seu novo lar, a adolescente cria vínculos num ambiente onde outras garotas partilham da mesma dor. Juntas encontram forças para superar. Na casa, a lei suprema é o amor, elas já sabem o suficiente sobre a dor para terem que viver num ambiente hostil. Ali, se reinventam como família. Compartilham histórias e se encontram umas nas outras.

*Suzana também mora no abrigo e, com menos de 15 anos, já é cheia de histórias pra contar. Sua mãe frequenta uma comunidade religiosa do bairro onde morava. O lugar cheio de doutrinas e conceitos parece trocar a espiritualidade pela estupidez. Os conflitos entre elas se arrastam pelos dias, a menina não quer viver “segundo a lei dos crentes”. A adolescente quer usar suas roupas e maquiagens, um escânda-lo para a mãe, que tem sua paciência esgotada quando descobre que a filha teve relações sexuais. *Suzana é expulsa de casa e encontra lugar nas marquises da cidade.
Hoje no abrigo ela encontra refúgio e tenta compreender a mãe. A dor do abandono e a sensação de ter sido trocada começam a perder lugar para o amor que parece emanar de cada cômodo de seu novo lar.

Antes de partir as vejo sorrindo, ambas estão produzindo enfeites para decorar a casa. Estão felizes! Sentimento conhecido há pouco tempo, mas que encontrou morada no coração e alivia o fardo de cada dia.

História de um outro abrigo
Elas viviam em uma periferia de Recife, quatro irmãs, tinham o futuro ameaçado pela extrema pobreza. Moravam num barraco de lona. No chão um tablado. O mais perto que podiam chegar do luxo. O mau cheiro era constante, os dejetos da comunidade desciam ao terreno da família. O quintal era uma fossa. Nos dias de chuva as coisas pioravam, o terreno alagava e o tablado era coberto por fezes. Conheciam de perto a miséria.

Seus pais, para suprirem o vício, lhes apresentaram o oficio mais antigo do mundo. Elas faziam as preliminares e a mãe terminava o serviço. O salário era um pouco de comida e os pais saciados pelo crack.

Resgatadas pelo Conselho Tutelar, as meninas foram levadas para um abrigo. O lugar, conhecido como “casa do amor” pelas autoridades locais, oferece todo cuidado necessário e, até o dia da entrevista, com as quatro, passaram a cuidar de nove crianças. Seus métodos de trabalho se baseiam em uma coisa, AMAR. O casal que dedica sua vida ao cuidado de todas que estão ou passam ali, transformam a casa num ambiente familiar saudável. As crianças se sentem seguras e como consequência mudam o comportamento. Se abrem ao tratamento necessário para superarem os traumas e encontram a liberdade por terem em quem confiar.

A mais nova das quatro irmãs corre pela casa, passa por todos os cômodos mostrando as fotos que tirou com a nova câmera do abrigo que revela fotos na hora. Ela, que não engatinhou, pois sua casa não lhe dava tempo ou condições pra isso, aproveita cada canto de seu novo lar. Conversamos num dialeto que ela inventou, parece que conseguimos nos entender. Logo me mostra que também sabe contar e dispara: “1, 2, 3, 4,5… 10, 20, 22, 27”, me desafiando a ser mais rápido que ela.

Antes de eu ir embora pergunto a uma das meninas que estava com uma foto na mão: quem são essas pessoas? Ela me responde: é a família. Peço para ver e ali estão as nove com um sorriso do tamanho do mundo e com uma paz nos olhos difícil de descrever. Enfim encontraram o refúgio que a maldade e a vulnerabilidade as impedia de ter.

No caminho de volta meu choro irrompe o silêncio na Kombi. Não consigo controlá-lo. As feridas que me foram expostas me tocaram e de alguma maneira me feriram também. Durante a conversa perguntei ao responsável por um dos abrigos: Qual é o segredo para uma mudança tão rápida em corações tão machucados? Ele me olhou nos olhos e disse: “o amor”. Sorriu e continuou: “o caminho é o amor”.

*Informações e características foram omitidas e/ou modificadas por motivo de segurança

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Léo Barbosa • 13/03/2015


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Comments

  1. Ju Ferreira 13/03/2015 - 15:30 Reply

    Muito bom, Leandro!
    Você escreve de uma forma emocionante, é possível imaginar todas as cenas!

    • Léo Barbosa 13/03/2015 - 15:34 Reply

      Obridado Ju! 😀

  2. Luniel Alof 13/03/2015 - 21:10 Reply

    Isso é real?

    • Léo Barbosa 13/03/2015 - 21:12 Reply

      Sim Fábio, é Real!

      • Luniel Alof 13/03/2015 - 21:17 Reply

        Não sei o que me impressiona mais, se é a capacidade que temos de negligenciar a existência de histórias tão sofridas ou se é o alívio de lembrar que existem essas almas vigilantes. De toda forma, parabéns pelo texto e pela coragem do afeto.

        • Léo Barbosa 13/03/2015 - 21:43 Reply

          Obrigado cara. Creio que as duas situações são de impressionar.

          Conhecu essa história porque fiz uma viagem com uma ONG durante a Copa. Nosso propósito era prrvenir as pessoas quanto ao tráfico humano. Transmitimos um doc durante a viagem. caso queira assistir pode baixá-lo no site 27brasil.com.br

          Abraço

          • Luniel Alof 13/03/2015 - 21:57

            Com certeza assistirei. Mais uma vez, parabéns!

  3. Luciana Amormino 23/03/2015 - 00:01 Reply

    Bacana, Leandro! Mais um olhar sensível para o outro, em um relato generoso e envolvente. Parabéns!

    • Léo Barbosa 23/03/2015 - 00:07 Reply

      Obrigado Lu!Agradeço também por todo aprendizado que você proporciona em sala. Abração

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