Brasil

O jardim sem flor

Outro olhar sobre a favela

O sol quente da cidade carioca estava a pico, o calor fazia com que os moradores do Jardim Gramacho, Duque de Caxias (RJ), saíssem de seus barracos e se acomodassem em suas cadeiras na calçada. O funk que tocava num bar improvisado de madeirite e lona ecoava pela rua instigando algumas crianças a dançarem. Logo avisto Genil Elias que, assim como todos, estava fugindo do calor que fazia dentro do barraco. Embora um amigo tenha indicado sua história, eu consegui abordá-lo apenas naquele momento. Mesmo pego de surpresa ele aceitou contar sua história e me convidou para entrar em sua casa. Logo percebi que conversar com o Sr. Brasil seria uma “pancada na consciência”. Um tipo de conversa que muda conceitos, não apenas pelas palavras ditas, mas pela vida que se expressava nelas.

Velho e cansado, Brasil, como é chamado na favela, com 61 anos de idade e 35 de Jardim Gramacho, se acomoda no sofá e me convida a fazer o mesmo. Ali, no seu barraco feito de madeira de pinho, onde dividíamos o pouco espaço que tínhamos com moscas, ele compartilhou comigo sua história.

Assim como muito moradores, Genil foi atraído para o bairro pelas possibilidades que o lixão, que funcionava no local até 2012, oferecia. “Vim pra cá por causa do lixo”, conta Brasil que antes morava numa cidade próxima a Teresópolis. Embora encontrasse as possibilidades pra vida nas montanhas de dejetos, a extrema pobreza e os riscos de morte faziam parte da rotina dele e de todos os trabalhadores dali. “Rapaz, foi triste pra mim. Eu quase morri. Tô cego!”, desabafa. Ele tevê um dos olhos atingidos pelos gases que são emitidos pelos lixões, resultado do processo de fermentação da matéria orgânica armazenada na terra.

A enorme quantidade de lixo por vezes impedia os motoristas dos tratores que operavam no local de enxergar os catadores, chegando a haver casos de soterramento, motivo de uma das quase mortes de Genil. “O trator quase me pegou, caí da rampa de mais de 10 metros de altura e uns galhos pegou aqui do lado”, conta apontando para as costelas.

Independente dos riscos foi ali que Brasil sustentou suas filhas Fernanda e Ana Paula, hoje com 23 e 21 anos de idade. “Ô rapaz, cuidei dessas meninas lá com o dinheiro da rampa (lixão)!”. Além de todas as mazelas que enfrentou e ainda enfrenta, a pior delas é o abandono. Ele não tem contato com as filhas há anos. “Sou doido pra ver elas, mas não vejo. Tem mais de dez anos que eu não vejo”, fala se perdendo no cálculo do tempo, respirando fundo, numa tentativa inútil de impedir as lágrimas.

Genil conta que uma de suas filhas partiu depois do marido ser confundido com um P2, PMs à paisana que se infiltram na criminalidade, pelos traficantes. A mais nova, por influência da mais velha, foi embora depois de um tempo levando cinco mil reais dados pelo pai dos dez que recebeu de indenização pelo fechamento do lixão. “Eu não tinha documento e botei no nome dela. Se não, eu não pegava!”. Com o restante do dinheiro, ajudou as irmãs que moram no interior do RJ. O pouco que ficou “acabou com os anos”, conta.

O velho, desafiado pelas circunstâncias desde cedo, perdeu os pais prematuramente e aos cinco anos se viu obrigado a trabalhar na roça junto com seus cinco irmãos. O tempo passou e cada um tomou um rumo entre o trajeto Rio – São Paulo. A questão é que as filhas eram o elo entre a saudade da família e o afeto. Sem elas, Genil caiu na invisibilidade. “Trabalhei na rampa pra cuidar delas, elas tinham que cuidar de mim. Quem sabe agora alguém me vê!”, diz, na expectativa de que alguém leia sua história e o enxergue. Na solidão ele tenta achar uma justificativa: “me abandonaram por medo”.

No barraco feito pela ONG Teto, uma organização que busca através do trabalho em conjunto entre moradores e jovens voluntários superar a situação de extrema pobreza em lugares como o Jardim Gramacho, Sr. Brasil guarda os poucos bens que possui: uma cama, um colchão velho, uma TV pequena, um celular antigo e uma bicicleta quebrada que serve como um memorial do dia em que foi atropelado e quebrou o fêmur, acidente que lhe rendeu meses no hospital. Com o salário mínimo que recebe de aposentadoria, paga a pensão onde lava suas roupas, se alimenta e o “mercadinho” em que às vezes compra fiado. “Não tenho nem um fogão pra eu cozinhar. Tem dia que eu como e tem dia que não como!”, reclama. “Olha, eu já sofri demais aqui, às vezes deito na cama e ficando pensando em tudo, pensando nas minhas filhas. Elas me abandonaram mesmo… o marido delas não deixa elas vir me vê”, diz, voltando mais uma vez às filhas e à busca de uma justificava quanto ao abandono.

Deficiente das letras, analfabeto, Genil buscou auxílio de uma advogada para se aposentar. “Paguei pra me aposentar. Eu não entendo nada disso aí, cego de uma vista ainda. Paguei a ela R$380, pra ela me aposentar. E ‘aposentô’!”, conta. Se lembra da advogada com carinho e diz: “de vez em quando ela vem aí, faz uma visita. Quando ela vem aqui, sempre para pra conversar comigo”.

Viver sozinho trouxe ao Brasil a consciência de que seria necessário impor alguns limites a si mesmo. E um deles seria encarar seus vícios: “eu usava cocaína e maconha, mas parei. Isso não dá futuro. Devido a viver sozinho eu não posso usar isso, se não eu passo mal sozinho e aí como é que fica? Parei com esse negócio!”. Outra situação seria abrir mão de alguns princípios: “tô aqui há 35 anos, todo mundo me conhece. Se chegam aí e pedem pra fazer alguma coisa pra eles, tem que fazer, sou morador do local. Às vezes pedem pra carregar alguma droga, tem que fazer. Vai dizer que não? Aí expulsam o cara do lugar e tudo. Mas não é sempre que pedem”.

Brasil se reinventa e sem saber parafraseia Shakespeare: “minha família são meus amigos”.  O abandono é o ponto chave do sofrimento, a cada instante da conversa as filhas são lembradas, os irmãos são citados, a ausência é dura. “Minha família mesmo, cadê? É a mesma coisa que num tê. Sumiu todo mundo”, lamenta.

Ele se agarra ao pouco que tem e, assim como a bicicleta, o barraco antigo feito de lona se manteve em pé ao lado da sua casa de pinho para lembrá-lo de que já houve dias piores.  Para quem viveu a vida lado a lado com a miséria e até mesmo o direito de ter um documento lhe foi furtado, ‘Seu‘ Brasil se orgulha do contrato da sua nova moradia. “Eu tenho duas folhas de documento que eles me deram. Isso aí, eu não posso vender pra ninguém”.

Exilado dos seus familiares, vivendo num lugar que somente o nome remete a flores, rodeado pela violência e repressão que moram nas favelas brasileiras, Genil Elias tem apenas dois desejos: um fogão “de ao menos duas bocas, para poder cozinhar”, e ser visto. “Isso vai pra internet, né? Espero que as minhas filhas me vejam!”.

Foto: Gustavo Lima
FavelaHistóriaJornalismoReportagem

Léo Barbosa • 11/05/2015


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