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O silêncio que atormenta

Li um texto esta semana em que o autor,  ao se referir ao caso da menina Valentina, do programa MasterChef, disse: “Uma mulher de 12 anos, que já está na idade até de ter filhos, claro que vai atiçar o desejo dos homens. Logo, ela tem que ser “gostosa” para atrair os machos e assim ser fecundada para gerar a prole”. Isso está espalhado pela rede, já são mais de 10k de compartilhamentos no Facebook.

O conteúdo violento, na minha opinião, caracteriza uma das chagas que assolam a questão de gênero: a objetificação sexual da mulher. A maneira como o autor se refere à menina reflete um dilema enfrentado todos os dias por inúmeras mulheres do país.

Não há pudor: tem vagina, serve! É novinha, melhor ainda! Nas rodas de conversa na academia, faculdades, baladas, em qualquer lugar, os machos prontos para fecundar, segundo o autor, analisam suas presas: “viu aquele capô de fusca? Vale por três, haha!”; “Aquela é vadia, olha o tamanho da saia?”; “Aquela lá tá doidinha pra dar!”. Os adjetivos são diversos: gostosa, biscate, puta, piranha. Mas há os “menos imponentes”, os intitulados carinhosos: meu amor, linda, delícia, gracinha. Nomenclaturas não faltam, mas o respeito sim.

Valentina, pelas telas das TVs entrou nas casas dos “machos” que, por sua vez, encontraram espaço na internet para expressar “seus afetos” (lê-se com ironia). O caso gerou inúmeras manifestações no Twitter através da campanha idealizada pelo projeto feminista Olga, criado em 2013, pela Jornalista Juliana de Faria. A hashtag #PrimeiroAssédio rendeu 82 mil tweets de mulheres que relataram a primeira vez que foram violentadas.

Uma análise de 3.111 histórias feita pelo projeto chegou à conclusão que a idade mínima do primeiro assédio é de 9,7 anos. É aí que nos encontramos num ponto perverso da nossa história: o momento em que ignoramos tudo isso. O que nos faz pensar o que de fato, dentro de nós, consideramos o que é ou não violento.

Segundo a idealizadora do projeto Olga, Juliana de Faria, “a normalização da violência é um dos grandes desafios que temos que enfrentar como sociedade”. Ao olharmos a violência como algo corriqueiro, tiramos da vítima o poder da denúncia, e fazemos mais um caso cair no silêncio.

A questão, estrutural, é parte da nossa vida diária. Segundo Thomas Mathiesen, sociólogo norueguês, esse silenciamento “é dinâmico no sentido de que, em nossa sociedade, ele se difunde e se torna continuamente mais abrangente”. Além disso, ao nos calarmos, livramos o Estado de sua responsabilidade diante de tal circunstância. Um prato cheio aos omissos de plantão.

“Ao olharmos a violência como algo corriqueiro, tiramos da vítima o poder da denúncia, e fazemos mais um caso cair no silêncio.”

Em 2007, tive a oportunidade de viver aproximadamente seis meses numa comunidade ribeirinha do Delta do Parnaíba, um conjunto de ilhas entre os estados do Maranhão e do Piauí. A violência à mulher era palpável e a falta de políticas públicas de qualquer instância fortalecia o fenômeno. A violência doméstica era rotina em algumas casas e a exploração sexual infantil nas regiões portuárias era, ao olhar dos moradores, um mal necessário.

Na época tive o conhecimento, por meio de um líder comunitário, que havia sido publicado uma portaria autorizando a abertura de um posto policial na Ilha de Canárias, local onde eu estava morando. Resolvi me unir a ele para exigirmos o cumprimento disso. Uma mulher, ou qualquer morador, teria que viajar cerca de três horas de barco ao município de Araioses (MA) para conseguir fazer uma denúncia. Um posto de atendimento ali seria o início para amenizar a onda de violência.

Na época vivenciei duas situações: um pastor da região me aconselhou a parar, porque ele considerava política o que eu estava fazendo e, como a sua igreja estava me hospedando, eu poderia prejudicar todo o trabalho que ele estava fazendo ali há anos para estabelecer sua congregação. A outra situação foi que mulheres da equipe de que eu fazia parte entenderam isso como coerente.

Resolvi voltar para SP, mas antes de retornar visitei a Delegacia da Mulher da cidade de Parnaíba (PI). Outro choque! Eram inúmeros casos de violência contra mulher e exploração sexual infantil, e uma delegada desesperada com tantas demandas. Na ocasião ela puxou uma gaveta cheia de casos, no micro espaço em que ela trabalhava, e disse: “quer saber o que acontece? Pega essas pastas, senta ali!”. Foi um dia todo lendo casos de histórias bizarras.

Todos esses casos, engavetados ou não, estavam diante de todos, todos os dias, a cada minuto, a todo instante como nos dias de hoje. Quem não estava ali éramos nós, e esta ausência permanece cada vez mais forte toda vez que resolvemos ignorar os fatos.

Hannah Arendt, filósofa alemã, conceitua como “banalidade do mal”: “o mal cometido por homens sem motivo, sem convicções, sem corações maldosos ou vontades doentias, cometido por seres humanos que se recusam ser pessoas. O mal cometido por ninguéns”. Neste contexto, ao nos calarmos, isentamos o culpado de sua culpa e negamos a nossa humanidade por naturalizarmos o mal.

Precisamos quebrar o silêncio de maneira que ninguém seja incapaz de denunciar tal violência. Assim, talvez estejamos aptos a refletir e a extrair da nossa história uma lição que nos torne bem melhores do que hoje.

mulherMulheresViolência a mulher

Léo Barbosa • 28/10/2015


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Comments

  1. Lucia 29/10/2015 - 13:53 Reply

    Pensamentos, vontades, desejos, todos temos… Lamentável que alguns deles sejam de tamanho desrespeito, crueldade e maldade. Seja com uma mulher, criança ou qualquer semelhante. A gente assusta mto qndo a proporção é midiática e tem o alcance em redes sociais, é qndo paramos e pensamos: COMO CHEGAMOS AQUI? E ai vem o pânico… Muita gente ainda entende que violência contra a mulher é apenas física! Ninguém vê a violência moral, o desrespeito, assédio no que a gente ouve! É surreal… E como vc vai na delegacia e fala: senhor delegado, quero falar que um cara me chamou de vadia na rua?! Não dá… Ele vai rir da minha cara! O que precisa ser entendido, e compreendido, que violência física, é uma das violências que a mulher passa. E não a única. E que isto precisa ser mudado!
    Amei o texto Leo! <3

    • Léo Barbosa 29/10/2015 - 14:01 Reply

      Fato, Lu! Seguimos lutando com a expectativa de que isso será diferente em algum momento! Abração

  2. Luciana Amormino 30/10/2015 - 18:07 Reply

    Muito boa a reflexão, Leandro! Um olhar apurado para o outro, como sempre. Parabéns!

    • Léo Barbosa 04/11/2015 - 15:16 Reply

      Obrigado pelo parabéns e o aprendizado, Lu!

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