Foto: Gustavo de Lima
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Outro olhar sobre a favela

Histórias do Jardim Gramacho e do Complexo do Alemão

Antes, algumas palavras

A violência rotineira nas favelas brasileiras parece não caber no nosso dia a dia. Na verdade, são limitadas aos jornais. O problema são as divergências entre as informações publicadas na mídia e as histórias dos moradores. Aquilo que assistimos e lemos, em grande parte, tratam apenas de bandidos e traficantes. E o restante da comunidade? Como vivem? Quem são? O que fazem? O que pensam a respeito da repressão vivida, da pobreza e da miséria promovida pelo descaso do Estado?

Minha curiosidade e interesse sobre o tema me levaram ao Rio de Janeiro e, nos dias 11, 12 e 17 a 21 de abril de 2015, pude conhecer de perto a realidade dos moradores das  comunidades do Jardim Gramacho e do Complexo do Alemão, e assim saber o que pensam sobre a polícia, a favela, a repressão e a violência.

O tempo que passei nessas comunidades aumentou o meu repúdio a todo tipo de injustiça praticada a quem parece ter nascido condenado à violência e à pobreza. Transformei minha indignação em palavras e emprestei minha escrita aos moradores que compartilharam comigo seu tempo em longas conversas. Assim nasceu a série Outro olhar sobre a favela. Nela expresso o pensamento de quem vive nessas comunidades , suas opiniões e histórias. Conto o drama vivido por um povo que se reinventa dia a dia na expectativa de uma vida melhor e justa.

Não posso deixar de agradecer a todos que cooperaram de alguma maneira para que tudo isso pudesse acontecer. Gustavo de Lima e Heliendel Rodrigues, os momentos clicados por vocês sem dúvidas não me deixarão esquecer os detalhes de cada dia. Jornal Voz da Comunidade, obrigado pelas indicações das fontes. Perfil Morro Alemão e Ide Missões, obrigado pela receptividade, cuidado e atenção. Sem vocês eu não conheceria ninguém e não contaria nada.

No mais, boa leitura a todos.

Aí, é guerra?

Numa ação promovida pela Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, no fim de novembro de 2010, uma tropa de 2,7 mil homens, sendo 1,2 mil policiais militares, 400 policiais civis, 300 policiais federais e 800 militares do Exército, invadiu o Complexo do Alemão. A ofensiva contra o narcotráfico, segundo a Secretária de Segurança, aconteceu por meio da união das forças estadual e federal, inédita no país. Nos últimos cinco anos, a operação teve seus momentos de trégua em relação aos tiroteios, mas não à repressão.

As ruas do Complexo estão tomadas por policiais. Ao subir o morro, em menos de dez minutos, passaram por mim seis camburões do Batalhão de Choque cheios de militares. Em apenas uma das ruas estreitas onde passei, havia mais de sete PMs. Cada canto do Complexo exala luto e os diversos becos apertados pelas casas, que abrigam cerca de 400 mil moradores, levam, em cada  metro quadrado, o medo e as lembranças de histórias interrompidas pela violência instaurada.

Nos últimos meses, a troca de tiros aprisionou os moradores. Nas igrejas, que parecem peneiras, os furos das balas de fuzil deixam o recado que a moradora do Complexo, Mariluce de Souza, 33 anos, traduz: “a fé não blinda a igreja!”. A infância marcada pela violência carrega em si a realidade da rotina dos moradores do Alemão. Na rua, um menino com uma bola debaixo do braço, ao ver um aglomerado de pessoas, pergunta: “aí, é guerra?” Enquanto, do outro lado da rua, um homem comenta com seu amigo no boteco: “Ih… lá vem o caveirão. Fudeu!”.

Mariluce, administradora do perfil Complexo Alemão no Facebook, com mais de 24 mil seguidores, que visa informar o morador sobre todo tipo de oportunidades a fim de ajudá-lo em suas conquistas, questiona: “se está pacificado, porque existe operação?”. Enfática, continua: “entrou o poder bélico, mas não entraram o esporte, a cultura e a educação. As pessoas acham que somos a favor dos bandidos… A gente é a favor da vida! Queremos de volta nossos espaços, nossa liberdade. Se devolverem nossos direitos, a gente tem paz. Se a gente tiver paz, a gente tem tudo!”.

Segundo Cleber Araújo Santos, 39 anos, marido de Mariluce e seu fiel escudeiro, a famosa frase “bandido bom é bandido morto” condena à morte os moradores das favelas brasileiras. Cleber explica que a perversidade por trás dessa fala generaliza e coloca todos num mesmo patamar. “Independente disso, a vida de quem quer que seja não deve ser tratada de forma tão banal. Somos abatidos de forma covarde e cruel. Ninguém aqui é bandido. Somos moradores, pessoas, seres humanos. A gente não pode morrer por causa de uma ideologia que foi criada pra isolar a favela e implantar um terror, um medo dentro da favela”, diz. Cleber pensa que o vídeo divulgado nas redes sociais, e em seguida pela imprensa brasileira e internacional, da morte do menino Eduardo de Jesus, de apenas dez anos, trouxe ao mundo a noção do que está acontecendo no Alemão. O morro, que outrora foi conhecido como a Faixa de Gaza brasileira, para ele, é Auschwitz. “O que acontece aqui é uma forma de extermínio”, afirma.

Há algum tempo, ser do Complexo do Alemão era assinar uma sentença, lembra Mariluce. “Todo mundo era bandido. Parente do bandido. Irmão do bandido. Antes, tínhamos que trocar de endereço para conseguir trabalhar”, diz. O marido interrompe a conversa e explica: “encarar o preconceito é rotina. A raiz do problema germina todos os dias. As folhas são podadas, mas o preconceito continua crescendo”.

A repressão na favela me remete à frase da escritora Teresa Teth: “viver é brincar de morrer a qualquer momento”. Seguir com a rotina na iminência de levar um tiro é torturante. Indignado, Cleber diz: “não há interesse em acabar com o tráfico. Porque ele não vai acabar. Mas o morador pode ser dominado pelo medo e pela implantação do terror”. Respira e continua: “O medo implantado em você pode te destruir, te deixar depressivo, tomando remédio de todas as espécies. Você fica cada vez mais desmotivado. Quando injetam em você motivação e esperança, você busca novos horizontes. E isso, é o que não está sendo feito aqui!”.

Entre a vida e a morte

Para se protegerem, Mariluce teve a ideia de criar um grupo no Whatsapp chamado Juntos pelo CPX, composto por 70 pessoas até o dia da entrevista, em 19 de abril. Nele, os moradores trocam informações sobre tudo, e assim cuidam uns dos outros. Se acontecer um tiroteio, algum acidente, qualquer coisa que envolva a favela, quem viu é encarregado de contar. O grupo foi criado há um ano e meio e como é formado por vários moradores, nem todos se conheciam. Aproveitaram a gravidez de uma das integrantes e uniram o útil ao agradável. No alto do Morro da Baiana, num domingo ensolarado, promoveram um chá de bebê, regado por muita música e churrasco. Num momento em que alguns se apresentavam, Cleber olha pra mim, com um sorriso no rosto e uma garrafa de cerveja na mão, e diz: “antes ninguém se conhecia. Hoje, unidos pela sobrevivência”.

Converso com um dos participantes que prefere não se identificar, e, por esse motivo, será tratado aqui como Morador. Ele explica seu ponto de vista sobre o descaso do Estado quanto aos direitos de quem mora na favela e como isso fortalece o tráfico. “O governo te abandona aqui dentro, não te dá escola, e você não tem condições básicas de alimentação,  não tem estrutura nenhuma pra crescer, pra se desenvolver, pra ser alguém na vida. Qual a sua saída?”, pergunta. Em seguida responde: “Você vê o tráfico, vê uma saída. Você cresceu dentro desse ciclo, cresceu dentro dessa engrenagem, então você tem que fazer parte dela, irmão. Eu não vou ser hipócrita e dizer: ‘ah, eu não faço parte’. Todo mundo faz parte dela”. Morador parafraseia uma música do Mc Tropa: “favela que o Estado abandona, o tráfico adota!”. E me pergunta: “Meu irmão, você consegue entender isso? Uma realidade tão cruel, tão dura, que vai na veia femoral da sociedade, esculacha, esculhamba. Todos os locais, periferias, o Estado exclui. Quem adota? O tráfico! E, se o governo fizesse a parte dele, o mínimo necessário, o tráfico não teria essa ascensão que teve. Não teria”.

Lembranças

Morador lembra-se saudoso de Orlando Jogador, antigo chefe do tráfico no Complexo, morto pelos “alemães” (integrantes da facção inimiga), em 13 de julho de 1994, num golpe liderado por Uê, chefe do Morro do Adeus, localizado em Ramos (RJ), dominado pelo Terceiro Comando. No livro Abusado – O Dono do Morro Dona Marta, o jornalista Caco Barcellos conta que Orlando Jogador tinha um código de conduta imposto aos moradores da favela. O jornalista fala que todos obedeciam às regras de Orlando e não era só pela imposição das armas. O traficante tinha a confiança do povo “mediante o pagamento de pequenas benfeitorias públicas e de serviços, no caso de maior necessidade dos moradores”.

Orlando Jogador prezava pela paz na favela, diz Morador. “Toda vez que havia alguma coisa que atingisse alguém da comunidade, tinha punição”. Além disso, ele se atentava aos direitos de todos: “o morador tinha direitos. Os pobres. Criança não tinha que tá na boca de fumo, criança tinha que tá na escola, era a filosofia dele. Não podia ter terror na favela, assassinato, covardia, nada, nada… ele não queria guerra, não queria morte. A não ser com quem vacilou. Poderia ser o melhor homem do mundo, mas se vacilou…”, explica.

Tiro no pé

Pelos muros do Complexo, o Comando Vermelho (CV) deixa sua marca. As pichações “CV” anunciam a que facção o morro pertence. E, se tem dono, tem quem cuida. Morador aprendeu isso com os exemplos de Orlando Jogador, o que fortaleceu muito mais suas convicções. É enfático ao dizer, esticando o braço direito e batendo nele com a mão esquerda: “aqui é Comando Vermelho”.

Ele explica que o descaso do governo é como um tiro no pé. Segundo ele, o código de ética do CV vai além da assistência ao traficante que foi preso e à sua família. Com isso, grande parte do morro recebe a ajuda que precisa, e assim, aquele que não tem a quem se apegar, confia em quem o favorece. “As famílias dos presos sempre receberam cobertura, entendeu? O dinheiro era irregular, todo mundo sabe disso, mas nunca deixaram a família desamparada. Fazem isso até hoje. O cara tá preso, ele recebe. A família recebe um apoio, uma ajuda. Então, é assim também com o morador… o governo não faz cara… Essa engenharia ganha o morador. Por isso que todo mundo grita hoje na favela ‘fora UPP’, porque mil vezes o tráfico do que as covardias que estão aí”, diz.

Uma das promessas das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) é acabar com o narcotráfico, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Para Morador, o papel dela é “impedir a comunidade de progredir, porque só trouxeram o poder bélico”. E defende sua ideia: “Eles querem acabar com o Comando Vermelho, mas não vão conseguir. Os caras são muito fortes. Os caras financiam grandes corporações; os caras financiam grandes nomes da política brasileira. Tem uma cartilha do Comando Vermelho, entendeu? As regras… tem uma organização cara, muito forte, muito poderosa, muito grande, entendeu? Num é ninguém com fuzil na porta do beco, num é isso. É muito maior do que isso que a gente imagina, entendeu? É um empreendimento, entendeu?”.

Certo ou errado, uma saída

A juventude na favela é estatística. Mortos, as histórias de cada jovem caem no esquecimento e, por vezes, nem mesmo são citadas nos jornais. Segundo o Mapa da Violência de 2014, desenvolvido pela Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República e pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Brasil, sete jovens de 15 a 29 anos são mortos a cada duas horas. Isso representa 82 mortes por dia, 30 mil por ano. Nesses números, a morte tem cor: morrem proporcionalmente 79,9% mais jovens negros que brancos. Esse número representa um aumento de 111% na vitimização de jovens negros de 2002 a 2012. No Complexo do Alemão, de dezembro de 2013 a setembro de 2014, segundo a contagem de mortos e feridos realizada pelo Instituto Raízes, morreram sete jovens entre 14 e 28 anos.

Com a falta de oportunidades, explica Morador, o jovem encontra o caminho de saída no tráfico. “Seu coração é seduzido pelas possibilidades que antes não tinha”, comenta. Segundo ele, o poder, a ascensão e o reconhecimento o tiram, em partes, da invisibilidade. Um lugar, outrora vazio, é preenchido pelas diversas responsabilidades que agora cabem a ele, “e isso é grandioso” pra quem não tinha nada. “Você fica tão seduzido que fica cego por isso, é uma religião… As coisas são pensadas, tudo bem montado, estruturado, idealizado pra alcançar quem está com a mente vazia. E aquilo ali vai ser a bandeira dele, é a vida dele, ele dá a vida por aquilo. Trabalha tanto a cabeça da pessoa, entendeu? Tem muitos adolescentes, muitos jovens que, tipo assim, se dizer pra ele fica aqui, o cara morre, mas não sai dali”. Para Morador, essa realidade não se limita à faixa etária: “Isso é com qualquer pessoa que é membro de coração e de alma, de sangue. Marca aqui! Meu irmão, vem o BOPE com 200 fuzil e o cara com uma pistolinha pequena, o cara não sai! A mente dele tá naquilo ali, ele não sai”, ressalta.

O Mapa da Violência conclui que somente o fato de existirem leis e mecanismos específicos de proteção, como os Estatutos da Criança e do Adolescente, e do Idoso etc. é suficiente para se comprovar as desigualdades e as vulnerabilidades existentes no país. Mas isso parece não adiantar, conforme reforça Morador. “Meu irmão, o sistema é cruel, ele faz isso com você, ele faz isso com as pessoas. Ele pega as minorias, as pessoas menos favorecidas que não têm poder de consciência, que não têm poder de cuidar da sua própria vida e deixa os outros dominarem. E aí nós somos muito fraudados. Todo mundo sabe que brasileiro é carente de muitas oportunidades, e ele [jovem] encontrou uma. Meu irmão, o bagulho é muito doido!”, afirma.

O cenário de guerra criado no Complexo do Alemão isola a favela. Ninguém sobe, ninguém desce. A vontade de viver é o motivo de não saírem de casa, e me atrevo a dizer que isso vai além do medo.  A pacificação, cada vez mais armada, promovida pelo Estado, leva o povo à indignação, e a raiva beira o ódio pelos militares. Com isso, os conflitos entre a polícia e os moradores da favela se intensificam. Assim, o Brasil segue colecionando seus mortos.

Continua.
*Foto: Gustavo de Lima
HistóriaJornalismoReportagem

Léo Barbosa • 27/04/2015


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Comments

  1. Delor Celestino da Costa Junior 27/04/2015 - 14:54 Reply

    Parabéns Léo pela coragem, sensibilidade e pela beleza da sua obra. Mais uma vez, seu TCC deveria ser seu blog, está maravilhoso.

    • Léo Barbosa 27/04/2015 - 15:02 Reply

      Obrigado Delor. Confesso que estou pensando nisso!

  2. Lorenza 27/04/2015 - 16:35 Reply

    Parabéns, Leandro. Já estou curiosa para ler as outras histórias.

    • Léo Barbosa 27/04/2015 - 16:39 Reply

      Obrigado! 🙂

  3. Rod 28/04/2015 - 14:22 Reply

    Muito bom mano. Cada vez melhor. Cada vez mais intenso.

    • Léo Barbosa 28/04/2015 - 15:05 Reply

      Valeu demais mano. Aos poucos vou me ajeitando. Muito obrigado pelos toques de sempre! 🙂

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