Rosa
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Por que ainda “queimam” as mulheres?

Hoje é um dia que traz à memória lutas constantes por direitos e valores. Uma data que cheira carne queimada mas, ao mesmo tempo, fala da garra de mulheres que, com sua resistência, fizeram ecoar um grito por justiça. Mesmo diante de um sacrifício como este, ainda vivemos dias em que a violência à mulher é constante e o machismo é a via em que este mal se perpetua. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, “a dominação masculina e o modo como é imposta e vivenciada resultam nesta violência que é suave, insensível, invisível às suas próprias vítimas…”

No ano passado, viajei para alguns estados do Brasil num projeto de prevenção ao tráfico de pessoas, e pude escutar algumas histórias que vou compartilhar no decorrer desta semana. A ideia de postar essas histórias outra vez é para afirmar que o dia Oito de Março fala de direitos conquistados e, acima de tudo, dos que ainda faltam ser. Segue a primeira história:

História de um antigo Lixão

Uma mulher se aproxima de mim, seus cabelos são tingidos de preto. Os olhos castanhos escuros demonstram a ansiedade de alguém que precisa falar. Vou chamá-la de Sílvia. Suas roupas simples refletem a moda imposta sobre todos os que moram no antigo lixão de Brasília, hoje conhecido como Estrutural. Ela pede para conversar: sua irmã havia sido traficada. Conta que a levaram para a Espanha e, presa num porão, foi obrigada a se prostituir e a se drogar.

A garota que viveu em regime de escravidão, ao voltar para o Brasil, se deparou com um sistema crítico de atendimento à vítima. Após contar sua história inúmeras vezes, a jovem, revitimizada, quase enlouqueceu. Seus relacionamentos ficaram frágeis pelo medo de confiar, o que também a enclausurou dentro de sua própria casa.

Os traumas tentaram limitar seus dias. A vontade de viver é tanta que, impedida disso pelas dores que carrega na memória, ela tentou se suicidar. Lidar com as lembranças é um fardo pesado para alguém que teve sua vida transgredida de diversas formas: a memória da violência que a obrigava a dormir com 20 homens ou mais por dia; as roupas que tinha que usar; o batom caro que tinha que comprar e não valia um terço do que era obrigada a pagar; a maneira como foi separada de seus familiares e amigos; as palavras que ouvia; a coação; o cárcere; a falta de comida e as demais coisas fincadas na alma é o que estão nesse fardo.

Silvia diz que o passar dos anos tem ajudado sua irmã a lidar com os traumas.O tempo, de alguma maneira, se tornou amigo e bálsamo para as feridas, e a menina traficada tem encontrado vigor em seus dias. O fato é que quem se encarregou disso foi o tempo e não nós. O mesmo tempo que fez o cheiro de carne queimada passar e vigora a violência que vemos até hoje.

JornalismoMulheresTráfico de pessoasViolência a mulher

Léo Barbosa • 08/03/2015


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Comments

  1. Lílian Souza 09/03/2015 - 02:12 Reply

    Escrever sobre uma questão de gênero, citando um sociólogo e terminando com uma história real?? Ahh acho que eu nem curti… hehehe.
    Massa o texto Leo!!! E continuemos na luta por mais equidade, igualdade e respeito. #ehnoiz

    • Léo Barbosa 09/03/2015 - 02:16 Reply

      Lílian, estamos juntos nessa luta! 🙂

      Obrigado por me estimular sempre!

      Abração

  2. Silmara da Rocha 09/03/2015 - 23:59 Reply

    Triste realidade, texto esclarecedor. As vezes os seres humanos não sentem únicos, mas só em uma luta tenebrosa, continuemos acreditando.

    • Léo Barbosa 10/03/2015 - 01:55 Reply

      Silmara, tem razão! A realidade é muito triste. Caso queira saber mais a respeito acesse http://www.27brasil.com.br

      Abração

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