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Primeira advogada trans negra do MS: ‘Todo mundo gosta de travesti na esquina, não na universidade’

por Leandro Barbosa

publicado originalmente em The Intercept Brasil

Desde criança eu sentia que havia algo de diferente em mim. Aos cinco anos, já me interessava por roupas de mulher. Conforme fui crescendo, comecei a experimentar escondida as roupas da minha mãe e da minhas irmãs. Usava calcinha, vestido, lenços para fingir que tinha cabelo comprido, sapato de salto alto.

Minhas irmãs sempre me respeitaram. Minha mãe sempre me apoiou, embora no início ela tenha tido dificuldade de expressar alguma reação diante das minhas performances. Ela não tinha informação sobre transgêneros. Se soubesse, com certeza eu teria entendido meu corpo trans mais cedo. Com meu pai, posso dizer que minha relação é tranquila. Nossa única conversa mais dura foi para que ele me chamasse de Alanys. No mais, convivemos bem. Frequento a sua casa e visito os meus irmãos, frutos de outros relacionamentos dele.

Meus horários quase nunca convergiam com os da minha mãe. Ela sempre trabalhou muito como doméstica. Mãe solo, se esforçava como podia para dar o melhor para mim e minhas irmãs. Ainda assim, sempre encontrávamos uma brecha para conversar, mas dificilmente falávamos sobre gênero ou sexualidade. De qualquer forma, as coisas sempre aconteceram com naturalidade dentro de casa. Nunca houve uma conversa para dizer quem eu era – todos já sabiam.

Boa parte do meu tempo eu passava com a minha irmã mais velha, de 29 anos, a Dani. Ela que cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava. Foi com ela que eu aprendi a estudar. Revisávamos a matéria da escola juntas, todos os dias. Embora ela não tenha conseguido se graduar, sua determinação em aprender me influenciou muito. Creio que foi daí que veio meu interesse pela vida acadêmica.

Até os meus 13 anos, eu expressava minha feminilidade de forma muito clara, mas isso mudou quando entrei na igreja. Embora muito feminina, até os meus 19 anos, período em que eu frequentava os cultos, costumo dizer que a minha transexualidade ficou em coma. Deixei de usar as roupas e me expressar como eu gostaria. Apesar disso, gostei desse tempo. Creio que a igreja na periferia acaba fazendo, hora ou outra, o papel do estado. Muita gente se beneficia, mas, no caso de corpos trans, a igreja não consegue suprir e entender a nossa realidade. Por isso, saí.

Nesse processo de compreender minha identidade e meu corpo, sofri algumas violências na escola. Uma situação que me marcou muito foi quando fui agredida durante um evento. Eu tinha 11 anos, e um garoto me deu um chute nas costas. Não era a primeira vez que ele me batia. Falei para o diretor o que houve e, como eu já havia procurado ele outras vezes, ouvi: “Você tem vindo muito aqui, talvez o problema não seja ele, mas você”. Na ocasião, pensei em parar de estudar. Minha mãe me disse que eu tinha que me manter firme, porque haveria muitos outros momentos assim na vida. Ouvir seu conselho me levou à universidade.

Continue lendo a reportagem no The Intercept Brasil.

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Léo Barbosa • 09/09/2019


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