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PROJETO DIADORIM

De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina…

(ROSA, 1956/1994, p.27)

 

O Brasil é um dos países do mundo em que mais se mata gays, lésbicas, bissexuais, travestis e pessoas trans. Para se ter uma noção da gravidade da situação, de janeiro até o início do mês de agosto de 2017, exatos oito meses, ao menos 243 mortes de LGBTs foram noticiadas em diferentes meios de comunicação – internet, rádio, tv, mídia impressa, etc. Assustadoramente, no ano de 2016, segundo o Relatório Anual do Grupo Gay da Bahia (GGB, 2017), 343 óbitos devido à homofobia e à transfobia foram contabilizados.

O PLC 122/06 que dispõe sobre a criminalização da homofobia e da transfobia no Brasil foi arquivado em 2014, sem que fosse aprovado pela Câmara dos Deputados. Criado em 2006, o referido Projeto de Lei condensa uma das mais antigas lutas dos militantes de Direitos Humanos e direitos LGBTs do país: o reconhecimento da especificidade da violência homolesbobitransfóbica e a sua criminalização.

Infelizmente, o arquivamento do referido Projeto não se deu devido à ausência de vítimas letais da homofobia e da transfobia. Os motivos pelos quais a proposta, após oito anos de discussão, foi engavetada, fundamentam-se na contínua reiteração dos princípios machistas, patriarcais e heteronormativos que regem a sociedade brasileira e a sua política.

Uma vez que a política convencional, partidária e burocratizada insiste em negar a – absurda – realidade da violência contra pessoas não-heterossexuais e trans, lancemos mão das armas poéticas e das estratégias de visibilidade. Conversemos. Coloquemos no dia a dia as condições de vida a que homens, mulheres e pessoas de gênero não-binário, que sofrem na carne os efeitos do preconceito e da discriminação homofóbicos, estão submetidos. Escutemos e leiamos as histórias de vida daquelas e daqueles que, pelo simples fato de existirem, provocam, suscitam afetos e incomodam as personalidades totalitárias ou fascistas. Aprendamos com Riobaldo e Diadorim.

Dentre as muitas personagens que fazem a Literatura Brasileira ser o que é, Diadorim, o ícone enigmático da escrita de Guimarães Rosa (1956/1994), marca a nossa arte profundamente. Em um cenário caracterizado pela secura e pela ausência de lugar para o feminino, as lutas violentas e os confrontos sangrentos estão presentes na narrativa de Riobaldo. Mas não só. Há, ali, também, um encontro incomparável – o de Riobaldo com Diadorim. Encontro que, notadamente, produziu impressões e sensações em ambas as partes. Uma narrativa, inteira, como tentativa de elaborá-las!

Mas, afinal, por que um projeto que visa contar histórias de vidas de pessoas LGBT’s com o nome de Diadorim? Porque tal personagem apresenta-nos, por meio de seu nome, de seu corpo e atuações, a ambiguidade e os paradoxos que nos caracterizam todos. Ali, no sertão das machezas, Diadorim atualizava as possibilidades outras de existência – de afeto e de luta. E exatamente por isso, Riobaldo chegou a afirmar: “Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele.” (ROSA, 1956/1994, p.22).

Assim, o História InComum, por meio do Projeto Diadorim, mostra-se disponível a colher e a divulgar histórias de homens e de mulheres transexuais, de travestis, pessoas não-heterossexuais e/ou de gênero não-binário, a fim de que as ambiguidades, os paradoxos, as possibilidades e as realidades que nos atravessam ganhem visibilidade. Caso você, pessoa LGBT, sinta desejo de compartilhar conosco a sua história, sinta-se à vontade para contactarnos. Será uma honra ouvir você e, a partir de seu relato, contribuir para que as nossas existências sejam respeitadas.

É isso: que pensemos – todos – a partir das histórias (e estórias) que aqui nos serão apresentadas. Vambora?

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

GGB. Relatório Anual 2016: Assassinatos de LGBT no Brasil. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2017. Disponível em: <https://homofobiamata.files.wordpress.com/2017/01/relatc3b3rio-2016-ps.pdf>. Acesso em 02 ago. 2017.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas (1956). São Paulo: Editora Nova Aguilar, 1994. Vol. II.