Houssam Nour

Diário de um refugiado: ‘trabalho 14h no Uber para tirar minha família da Síria’

por Leandro Barbosa

publicado originalmente em The Intercept Brasil

Quando a guerra começou em 2011, eu queria sair da Síria, mas também queria muito o meu diploma. Eu comecei a faculdade em 2009, estudava em Damasco, capital do país. Cursei engenharia civil em meio aos muitos bombardeios. Ser engenheiro civil era o meu sonho. Batalhei muito por isso. Seguir em frente teve um custo alto: tinha dias que eu estava em sala de aula, em outros eu ajudava feridos e carregava corpos.

Teve uma vez que uma bomba caiu em um restaurante dentro da faculdade de arquitetura, morreram muitos colegas que estavam tomando café. Foi horrível, as pessoas sagravam, corriam, eu tentava ajudar. Às vezes, só depois que as coisas acalmavam, eu me dava conta que estava todo sujo de sangue. Apesar de tudo, eu era o 9º melhor aluno entre os 600 matriculados na Damascus University.

Apesar da guerra, consegui me formar em 2014. No mesmo ano, me casei e minha esposa engravidou. Ela se chama Dima Mely, se formou em arquitetura seis meses antes de mim. Fizemos algumas economias com a pretensão de partir para os Estados Unidos, Europa, Austrália, para qualquer país desenvolvido que nos desse condições de viver bem, mas todos eles fecharam as portas para nós. A gente tinha a possibilidade de pegar um barco como muitos refugiados ainda fazem e cruzar o mar a fim de chegar em algum país europeu, mas eu não queria isso. Era muito arriscado. E eu só conseguia pensar em uma prima de 37 anos e suas filhas de 8 e 10 anos que morreram em uma dessas travessias.

A notícia de que o Brasil estava recebendo bem refugiados sírios já havia se espalhado. Eu e minha família sempre gostamos do futebol brasileiro, mas não tínhamos ideia de como seria a vida por aqui. Resolvi tentar e deu certo. Desembarcamos em São Paulo, em maio de 2015, e ficamos lá cerca de cinco meses. Alugamos uma casa na Mooca. Achei que chegaria e encontraria emprego, mas não foi assim. O dinheiro que juntamos na Síria dando aulas particulares de inglês e matemática durou cerca de um semestre.

As coisas começaram a ficar difíceis e se complicaram ainda mais com o nascimento da Salma, minha filha. Foi quando um sírio que mora em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, chamou Dima e eu para cá. Ele conseguiu um lugar onde ficamos um ano sem precisar pagar aluguel. Nesse período, consegui um trabalho de auxiliar de engenharia, e o salário era dividido entre nós e nossos familiares na Síria. Fiquei neste trabalho por quase dois anos.

Continue lendo a reportagem no The Intercept Brasil

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Léo Barbosa • 28/07/2019


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