Foto: AFP
1

Relatos de um racista em recuperação

Por Rod Silva, especial para o História Incomum
Foto: Agence France-Presse (AFP)

O Fernando era aquele tipo de pessoa que você adora ter por perto. Crescemos juntos no mesmo bairro periférico no interior de São Paulo. Tínhamos 2 anos de diferença, por isso não estudávamos na mesma escola. Mas era terminar a aula, corríamos para almoçar, às vezes, um na casa do outro. Em seguida descíamos as pressas para jogar futebol na rua sem saída onde morávamos, fizesse chuva ou sol. Não que fossemos excelentes jogadores. Mas, juntos no mesmo time, completávamos a habilidade um do outro. Éramos o Bebeto e Romário da rua.

Por volta dos meus 14 anos li o conto do Negrinho do Pastoreio. A história era sobre um menino que se dizia afilhado de Virgem Maria. Certa vez o senhor de engenho mandou-o pastorear alguns animais recém comprados. O menino, apesar de pequeno e magro, foi conseguindo reunir os animais, sozinho, e levá-los para o curral da fazenda. Porém, o feitor percebeu que estava faltando um cavalo e açoitou o menino até sangrar. No outro dia mandou que o Negrinho fosse buscar o animal que havia deixado para trás. O menino assim o fez, mas o cavalo era muito forte e arrebentou a corda e sumiu novamente. Desta vez, além da surra, o feitor jogou o menino sobre um formigueiro para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, foi até o formigueiro e viu o Negrinho, em pé, sem machucados, tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu.

Lembro de me sentir triste logo que terminei a leitura. Era um pouco cruel, apesar de não ter entendido plenamente a história na época. Fiquei incomodado por um tempo. Mas logo, ao início de um novo livro, o incomodo sumiu e eu mal lembrava de ter lido realmente aquela história.

Dias depois, estávamos nós mais uma vez no futebol e, por conta de uma jogada errada do Fernando, gritei automaticamente “é um negrinho do pastoreio mesmo”. Quase todo mundo deu risada. Fernando, meio encabulado, me xingou de algo que não lembro. Pediu para outra pessoa entrar no seu lugar no time e saiu para beber água. Logo voltou e estava tudo, aparentemente, normal. Para mim tinha sido um momento de raiva e zoeira e só. Não tinha importância. Continuamos nosso futebol na rua, mas o apelido “Negrinho do Pastoreio” o seguiu por longos anos.

Já mais velho, lembro de ter dado o mesmo apelido para um outro amigo. Felizmente não pegou. Na verdade, ele brigou acintosamente por tê-lo chamado desse jeito. O que não era do seu perfil o tipo de bronca que me deu. Fiquei um pouco assustado. Pedi desculpa e nunca mais pensei nisso.

Há cerca de 6 meses, um terceiro amigo postou um relato no Facebook. Era, na verdade, uma lista de conselhos que ele daria a si mesmo se pudesse voltar ao passado e conversar consigo aos 17 anos. O conselho número 15 dizia exatamente o seguinte:

“Não dê sorrisinhos constrangedores diante de uma piada racista, só pra ficar bem com a galera. Se imponha, esbraveje e mostre que não aceita isso” (sic)

Fiquei um pouco perturbado depois ler. Apesar de nos conhecermos a menos de um ano, era como se ele estivesse mandado uma indireta totalmente direta para mim. Foi quando me lembrei dessas histórias que contei e de tantos outros momentos ao longo da vida.

Na última eleição o primeiro vereador assumidamente gay na cidade São Paulo foi eleito. Se trata do controverso Fernando Holiday. Um garoto negro de 20 anos que ganhou notoriedade na propagação de pautas de extrema direita e por seu vínculo ao Movimento Brasil Livre (MBL).

As primeiras medidas anunciadas por Holiday causaram preocupação em muita gente e se tornou motivo de chacota para tantas outras pessoas. São elas:

– Combater o vitimismo
– Acabar com as cotas raciais em concursos públicos municipais
– A revogação do dia da consciência negra em São Paulo

Quando li isso, parei o que estava fazendo para refletir a respeito. Não que fosse uma novidade vinda desse menino da qual já conheço as ideias intransigentes. Mas senti uma tristeza profunda ao pensar em algumas possíveis coincidências.

Assim como meu amigo Fernando, esse Fernando, o Holiday, talvez tenha sido vítima de alguém como eu, no futebol, na escola ou onde for. Só que, no fim das contas, ele acreditou que o Negrinho do Pastoreio deveria realmente ser castigado por sua ineficiência.

Segundo suas próprias palavras “Todos, independente de cor de pele, podem alcançar o sucesso sem precisar de migalhas do Estado para isso. […] Chega de segregacionismo institucionalizado. Todos somos iguais!” (sic)

Quando Holiday conheceu Zumbi dos Palmares, ele preferiu acreditar na versão do Barão, o Senhor de Engenho. Alguns desses em forma de sociólogo, antropólogo e jornalista.
“É um absurdo que exista uma data como esta, e que acima de tudo, homenageie um homem assassino escravagista.” (sic)

Ao longo de suas duas décadas de vida, Fernando Holiday se encontrou com mais pessoas como eu do que com os tantos Zumbis que tem se levantado, para a esperança de todos, na nossa sociedade.

Não sei como será para o Fernando Holiday o caminho de retorno para casa. Espero que ele realmente se encontre. Não sei como será a trajetória de algumas pessoas próximas que nem se reconhecem como negros. Que, apesar do tom de sua pele, fazem questão de gritarem aos quatro cantos que são muito superiores “a esses pretinhos” num total deslocamento de identidade. Torço para que nunca lhes faltem espelhos nesse percurso.

Mas como só passar falar da onde meus pés pisam, eu, de herança nordestina e indígena, penso que o feriado da Consciência Negra que coincide com o aniversário de morte de Zumbi, líder negro do Quilombo dos Palmares, é uma das afrontas mais que necessárias à nossa herança racista. E o fato de um jovem vereador negro e gay querer acabar com ele, corrobora minha tese.

O racismo é crime. É imoral. É pecado. E, muita vezes, sou eu e você. Ainda temos nas mãos o chicote pendurado ao lado do tronco e as chaves das senzalas.

Que movimentos como Black Lives Matter e a infinidade de coletivos do Movimento Negro que vem ocupando praças, ruas, escolas, igrejas e poder público, se espalhem cada vez mais até que nosso/meu racismo morra de inanição.

Assim, muito mais que a fatídica abolição da escravatura, uma verdadeira revolução se torne realidade nos nossos dias cheios de ódio e preconceito.

Viva o povo negro vivo e livre!

Dia da Consciência NegraFernando HolidayMBLMovimento NegroRacismoZumbi dos Palmares

Léo Barbosa • 20/11/2016


Previous Post

Next Post

Comments

  1. Relatos de um racista em recuperação | Estranho mundo de ROD!

Deixe uma resposta

Your email address will not be published / Required fields are marked *