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Uma prece para uma estrela

 

por Julia Falconi


Na casa, ainda restam pertences da menina Miriam Brandão. Lembrada pelo sorriso alegre, pelas travessuras e pela saudade. Na sala, há uma pintura grande da menina, que a mãe exibe com orgulho. Alguns desenhos da garota esboçam a alegria juvenil de toda criança repleta de sonhos. Retratos, o último vestido, os desenhos que Miriam havia apenas começado a fazer e os brinquedos favoritos: foi tudo que restou da menina de apenas cinco anos.

Em 1992, ‘Beagá’ parou. Eu não havia nascido para dizer. Mas, mesmo depois do crime que abalou o país na época, a repercussão ainda era grande. Os professores falaram muitas vezes que o plantão do MGTV (telejornal da afiliada da Rede Globo) entrava ao vivo, ao menos três vezes por dia. Os âncoras e repórteres davam esperança de que Miriam seria encontrada a qualquer momento, era uma questão de tempo. A menina havia sido sequestrada dia 22 de dezembro de 1992.

— Me lembro de todos os detalhes. De como eles entraram na minha casa disfarçados. Do quanto foram cruéis ao prolongarem nossa espera e angústia pelo resgate de nossa menina. Miriam era um doce de criança. Qualquer pessoa se encantava por ela, e ela era muito apegada a nós — emocionada, Jocélia Brandão apanha a foto mais conhecida da filha.

— A senhora guarda uma lembrança dela assim? — indago.

— Exatamente assim, sempre alegre, como ela era — responde, recobrando o sorriso.

O Sequestro

“Eu havia saído para trabalhar e meu ex marido, o pai de Miriam, estava em casa. A moça que nos ajudava na época também estava lá. Então eu não fazia ideia do que estava acontecendo e era ainda mais aterrorizante”, conta Jocélia.

O plano fora bem articulado. Rosemaire Figueiredo Silva, ex-funcionária da farmácia de Jocélia Brandão e de Volney Henrique Brandão, pais de Miriam, mandou o namorado Wellington Gontijo sequestrar a menina Miriam como vingança pela demissão da funcionária. Wellington chamou seu irmão William para o ajudar no sequestro de Miriam. Se apresentaram como técnicos da Telemig e, como a casa já apresentava problemas, a empregada permitiu a entrada na casa da família Brandão, no pacato bairro Dona Clara, região da Pampulha, em Belo Horizonte. Os irmãos Gontijo amarraram a ajudante e pegaram a menina ainda em sono profundo.

— Não há limites para a crueldade humana. Não sei como puderam sequestrar dois ossinhos e dentinhos… Uma menina tão pequena e indefesa — estalando os dedos, a mãe recomeça a falar.

— Eles ligaram logo em seguida pedindo o resgate? — pergunto.

— Não, a espera por notícias era ainda pior do que saber que estavam em posse de Miriam – Embora Jocélia tenha passado por esse trauma tão grande, seu rosto e alma expressam uma paz acolhedora. Me senti extremamente acolhida. Não sei bem se porque Jocélia é uma mãe que perdeu uma filha e tem, por natureza, esse extinto materno, ou se por que é possível ver em Jocélia uma alma de guerreira, nobre. Só sei que nela também se vê paz e aconchego.

No dia 23 de dezembro, os irmãos Gontijo resolveram ligar. Do outro lado da linha, havia o homem que estava com Miriam. Não somente isso. Do outro lado, estava a esperança. Foram pedidos 150 mil dólares pelo resgate e a família, que não tinha o dinheiro, prometeu arrumar. O pai de Miriam disse, em depoimento na época ao MGTV, que já estava vendendo tudo para ter a filha de volta. A negociação se prolongou por 17 dias, até que, no dia 8 de janeiro de 1993, a polícia conseguiu encontrar o cativeiro de Miriam Brandão. Os irmãos Gontijo tinham se escondido em um sítio em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. A polícia conseguiu invadir o cativeiro, mas os irmãos Gontijo não foram encontrados. A menina Miriam, tampouco. Mas a criança tem um motivo: foi queimada.

No primeiro dia de sequestro, Miriam chorava muito e chamava pela mãe, que nunca tinha se separado tanto tempo da filha antes. O que irritou os irmãos e o fizeram temer pela liberdade, tendo em vista que a menina poderia os reconhecer. A solução que encontraram foi matar Miriam Brandão asfixiada e depois queimar o corpo para não sobrar vestígios. O cunhado de Jocélia, que na época trabalhava para a polícia , estava na operação de investigação.

— Eu falei: “Marco, eu tô pronta, me leva aonde minha filha tá”. Ele me abraçou, me carregou e falou: “é, minha cunhada, nós perdemos a batalha”. Eu falei: “por quê?”. “A Miriam está morta.” “Então me leva onde está o corpo dela.” “Nem isso nós temos.” “Como vocês não têm? Eu quero o corpo da minha filha.” “Não, os policiais já estão no local, mas o corpo dela foi destruído” — segurando o urso da filha, Jocélia se apega agora às lembranças que sobraram de Miriam.

— A senhora conversou com algum deles, Jocélia?

— Sim, queria saber o porquê.

— E o que ele disse?

— Ele teve coragem de falar que ele asfixiou ela com éter, porque ela chorava muito, queria eu, o irmão e o pai, e a mamadeira. Ela tomava mamadeira ainda. E que, pra não deixar vestígios, ele esquartejou e queimou ela toda. Aí levou ela no pé de bananeira onde ela tinha sido queimada. Me contou todos os detalhes do que havia feito com ela. E eu sou a mãe… — é preciso recobrar o fôlego desta vez, para continuar.

Quando os irmãos foram presos, junto com Rosemeire, a população foi até a porta da delegacia bradando pela pena de morte. A repercussão foi nacional. Os irmãos, então, foram levados a julgamento. Wellington Gontijo Ferreira foi condenado a 32 anos de prisão fechada; o irmão, William Gontijo, foi condenado à mesma sentença. Rosemeire, no entanto, sendo a mentora do crime foi condenada a 18 anos de regime fechado. Wellington foi liberado por bom comportamento depois de 11 anos e já não tem mais pendências com a Justiça. Hoje, ele é pastor no interior de Minas Gerais. William cumpriu 17 anos da pena e também foi liberado.

— Eles te pediram perdão?

— Nunca! — em negação, Jocélia parece não se importar.

— Você perdoaria?

— Depois de um certo tempo, eu consegui perdoá-los. Não tenho raiva deles, não tenho ódio deles. Só peço a Deus que eles não façam isso com mais ninguém. Porque eles conseguiram marcar minha família pro resto da vida.

O bem como caminho de superação

Depois de perder a filha, Jocélia engajou-se em movimentos sociais contra a violência, em passeatas, institutos e ao Mães Sem Nomes — um grupo de mães que acredita que, compartilhando a dor, suaviza. Foi lá que encontrou sua parceira que a ajudou em uma de suas maiores conquistas, Gloria Perez, mãe da jovem Daniella Perez, também assassinada. Juntas, elas lutaram pela homologação do homicídio qualificado como hediondo.

Jocélia Brandão

Foto: arquivo pessoal

— Nós conseguimos mais de 1 milhão e meio de assinaturas em três meses para a mudança no Código Penal brasileiro, incluindo o homicídio qualificado como crime hediondo — empolgada, Jocélia apanha uma pasta com assinaturas e mostra. O brilho nos olhos cada vez mais radiante. É possível ver a Jocélia sonhadora tomando conta da outra Jocélia, a triste, nocauteada pela vida.

A mãe manteve o quarto de Miriam conservado até a filha caçula herdar. Pois é, Jocélia teve mais duas filhas desde que perdeu Miriam (que, este ano, completaria 29 primaveras). O atestado de óbito de Miriam foi mais um longo processo que Jocélia teve que batalhar para conseguir. Afinal, como o corpo era inexistente e só haviam restos do DNA de Miriam no pé da bananeira, o atestado só foi possível com a Vara Cível e retirado ano passado. Um passo a mais conquistado por Jocélia e que a coloca cada vez mais próxima do seu sonho de construir o Instituto Miriam Brandão.

Desde que filha foi embora, Jocélia conta, guiada pela emoção e pela fé,  que ora para a estrela Miriam que deixou de brilhar na Terra para brilhar no céu. Oremos, então:

“Anjo da Guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia”.

Mães sem NomeMiriam BrandãoSequestro

Léo Barbosa • 09/10/2016


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