Sobre eliminar os errantes

Sobre eliminar os errantes

Por Ronilso Pacheco, especial para o História Incomum

Cada vez mais, a sociedade vai querendo se livrar dos errantes, daqueles cujo “comportamentos desviantes” comprometem o bom fluxo do corpo social – essa gigantesca engrenagem que não permite parar. Enquanto essa máquina gira, a noite paira sobre homens e mulheres que desperdiçaram suas chances ao cometerem erros que colocam em risco o bom funcionamento da nossa trajetória. E nós silenciamos, não porque achamos que somos coniventes, mas porque também estamos devidamente focados no nosso lugar na engrenagem, e as mortes ao nosso lado são as mortes daqueles que foram ficando para trás. Errantes. Definitivamente, nossa apatia e nossa convivência pacífica com o absurdo que compromete e diminui o valor da vida de alguns, é além do normal.

O que leva uma cidade a não se indignar com a morte de cinco jovens cheios de sonhos, fuzilados de maneira cruel e covarde por agentes do Estado, mas que tudo é compreendido e tratado como sendo erro pessoal por escolhas subjetivas destes agentes e não uma expressão da “cultura securitária” deste mesmo Estado? Porque uma mulher negra e favelada arrastada por um carro de polícia é tratado como pura e simplesmente um acidente e um erro, e não a expressão do tipo de cuidado que esta “cultura securitária” mantém? 

“Falta-nos a vergonha da indignação que não tolera a banalização da vida, sobretudo da vida frágil”

O que faz com que adolescentes sejam assassinados e toda a história se resuma e se encerre num triste caso de “bala perdida” e não a expressão do modus operandi desta “cultura securitária”? O que nos faz simplificar, como um simples confronto entre bandidos e polícia, a morte sistemática de jovens policiais expostos em áreas de grande conflito e largados em condições precárias de trabalho, ao invés de vê-la como a expressão dessa banalização da vida segura dessa “cultura securitária”?  

Talvez falta-nos, como bem lembrou o francês Gilles Deleuze, a “vergonha de ser Homem”.

Essa reflexão é uma ideia que Deleuze trás a partir dos relatos do italiano Primo Levi nos seus livros que contam, sem ficção, sua dolorosa história como sobrevivente de Auschwitz. É conhecida a história de Primo Levi, quando ele é levado para o campo de concentração com 650 judeus e apenas três deles sobrevivem. Levi entre eles.

Toda essa experiência de quem conviveu com a morte diariamente num ambiente infernal e sobreviveu (se é que esta seria uma boa palavra para tal), o estimulou a relatos doloridos, incríveis, que aproximou muitos leitores e ouvintes dos limites do que de pior uns seres humanos poderia fazer com outros seres humanos. “Quando fui libertado, o que me dominava era a vergonha de ser um Homem”, teria dito Levi. É desta vergonha que Deleuze vai tratar em sua filosofia, bem como sua parceria de reflexão com o compatriota Félix Guattari. Sinto que esta vergonha nos falta. Exatamente nestes termos.

Falta-nos a vergonha da indignação que não tolera a banalização da vida, sobretudo da vida frágil, vulnerável, as vidas empurradas para fora do arco simbólico da ética, onde o “tudo, seja como for” lhe é imputado para coibir o erro. Um jovem pobre, negro, favelado, não tem o direito de recusar a oportunidade de se dedicar aos estudos, de aceitar um trabalho, seja qual for. Porque se ele recusa, ele se expõe a possibilidade de “cometer um erro”, e entre nós nenhum erro será tolerado.

“Definitivamente, nossa apatia e nossa convivência pacífica com o absurdo que compromete e diminui o valor da vida de alguns, é além do normal”

A gravidez de uma adolescente, desempregada, medíocre nos estudos, sem condições de sustentar a si mesma (e ainda assim disposta a colocar uma criança no mundo), é um erro. Ela acaba de perder o foco para acertar na vida e servir de maneira eficiente na cadeia produtiva social. Os adolescentes da Central do Brasil já se tornaram errantes, cujas energias solidárias da sociedade não devem ser gastas para tentar acreditar no acerto agora. Os condenados ao nosso sistema penitenciário devem ser esquecidos, seja lá sob que condições eles vivem. Eles são um erro, e gastar tempo com eles significa desviar tempo útil que deveria ser usado servindo aos que lutam para acertar e se manterem na engrenagem social.

A não responsabilização do Estado na morte de meninos como Juan, Eduardo de Jesus, Carlos Eduardo Souza, Roberto Silva de Souza, Jonatan de Oliveira ou jovens policiais como Alda Raphaela e Bruno Rodrigues, é a demonstração fria e silenciosa de que o Estado pode não ser responsabilizado quando o erro envolve “territórios errantes”. Conviver com isso deveria nos envergonhar. É essa vergonha que nos falta que talvez nos permitisse se indignar com a convivência tranqüila com essa naturalização da “violência inventada”, como dizia o teólogo José Comblin. Essa violência criada pelo próprio homem e institucionalizada pelo Estado, que a usa como metodologia de manutenção da segurança, da paz e da ordem, mas que, na prática, controla, pune e responsabiliza os mais pobres, os pretos, as favelas e as diversas periferias. Os territórios errantes.

A vergonha de Levi, que questionava sua condição de sobrevivente – que ele não considerava uma condição de privilégio, mas de dor e responsabilidade – poderia muito bem ser a nossa vergonha. Mas nós parecemos não senti-la. Estamos bem assim. Estamos ocupados, tentando não cometer erros no dia a dia, para que não possamos nós mesmos ser colocados para fora da engrenagem social. E estamos também ocupados demais vigiando permanentemente os errantes, torcendo para que eles sejam definitivamente punidos e tirados de circulação.

 

Ronilso Pacheco é graduando em Teologia na Puc-Rio, interlocutor social no Viva Rio e do Coletivo Nuvem Negra.

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Léo Barbosa • 26/02/2016


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