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“Me chamavam de Xica da Silva, Mônica e Pilar, até o dia que passaram a me chamar de Tristeza”

por Leandro Barbosa

publicado originalmente em The Intercept Brasil

 

ANA (NOME FICTÍCIO) É mulher, negra e trabalhadora rural da região norte do Centro-Oeste do país. Ela começou a trabalhar aos 7 anos, quando pegou no cabo da enxada pela primeira vez para ajudar a sua família na lavoura, nas terras que seus pais arrendavam, para garantir o alimento e uma renda mínima para viver.

Anos mais tarde, na adolescência, “aprendeu na prática a ser cozinheira profissional”, ofício que exerceu por anos nas casas da elite da capital do estado em que ainda mora e que não revelaremos, assim como a atual idade de Ana, por questões de segurança. Nessa altura da vida, ela já não estudava mais, seu último ano na escola foi a 5ª série do ensino fundamental. Na juventude, cozinhou até mesmo em “casa de artista”, lembra.

Já adulta, trabalhou como catadora. Era do lixo que vinha a sua renda mensal de 250 reais. Foi graças ao serviço de gente como Ana que a cidade ganhou um aterro sanitário. Mas, como aprendeu com a sua família, o sustento não vem apenas de um lugar. E, como muitos pobres da zona rural, Ana passou a buscar seu ganha-pão de cidade em cidade.

Foi em uma dessas viagens, no início deste ano, enquanto vendia  maçãs do amor em uma feira, que ela conheceu uma mulher que se apresentou como Sandra e lhe ofereceu um emprego de faxineira em um hotel, na Europa.

Logo depois, Ana recebeu cinco ligações de homens que ela desconhecia. Mas a responsável pelo esquema no Brasil era mesmo Sandra.

O trajeto foi Centro-Oeste – São Paulo – Amsterdã – Lisboa. A motivação foi o sonho de dar um futuro melhor aos seus três filhos e ao neto que ficou sob sua guarda depois que o filho mais velho foi assassinado por conta de uma dívida com traficantes, há três anos.

Ana conta que, mesmo não tendo “um centavo na carteira”, não teve problema algum ao desembarcar  em Lisboa, na madrugada do dia 8 de março. De lá, ela foi levada para uma região mais afastada da capital, que ela não sabe dizer onde é.

Naquele momento, ela também descobriu que possuía uma dívida de 8 mil euros, referente à passagem de avião e à emissão do passaporte, retido pelos criminosos. Além disso, teria que pagar um valor diário se quisesse comer e trocar suas roupas de cama.

Ana conta que, além da prostituição, a casa também lucra com tráfico de drogas. Segundo ela, a cocaína atrai muitos clientes que alugam quartos e ficam trancados, por um ou dois dias, com mulheres, obrigando-as a usar também.

“Tinha menina que ficava fechada no quarto com o cliente. Quando saía, a gente só via sangue escorrendo. Ela não comia e nem bebia”.

Continue lendo a reportagem no The Intercept Brasil.

Tráfico de MulheresTráfico de pessoasTráfico Humano

Léo Barbosa • 28/07/2019


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