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Uma bebida para esquecer a dor

Numa pequena praça em Ponta Negra, Natal, converso com um grupo de alcoólatras. Homens e mulheres com a face golpeada pelo álcool. Senhores e senhoras com a “alegria e sensibilidade” que só a cachaça oferece quando a dor tenta sobressair à vida. Como um antídoto que afaga, um meio que os tira da realidade cruel e áspera. Me contam casos da vida, dos filhos, das ruas que as vezes os hospedam. Era uma forma de me mostrar que independente de seus vícios eles são humanos. Falam na esperança de sair da invisibilidade. Argumentam para provar que pensam. Expressam-se com a missão de mostrar a todos que também são gente, como eu e você.

Seus dias passam com o mesmo cheiro, gestos e costumes. Nos devaneios entre o choro e o riso, tentam encontrar um rumo com passos cambaleantes. Embriagados, na praça, carregam o fardo que não os deixa sãos. Pedem que eu não cite suas confidências, já estão expostos demais. Meus dedos coçam, mas vou cumprir minha promessa. Escolho escrever sobre o que penso, desejo e espero:

Creio que agora falam sobre o dia que deixaram de ser invisíveis. De quando alguém os escutou e riu das suas alucinações. Que contam com alegria sobre o dia que deixaram de serem bêbados e foram vistos como gente, como iguais, porque seus argumentos e suas dores foram compreendidos. Espero que estejam caminhando a passos largos e firmes para suas casas, e lá, sejam recebidos com sorrisos nos rostos e com todo afago que um lar pode oferecer.

Na hora de partir um deles me abraça e parafraseia uma canção do cantor Roberto Carlos: “volta logo meu amigo, volta para salvar meu povo”. Naquele momento me afundo na impotência. Ambos sabemos que o mundo não os vê, que dificilmente os salvariam. A utopia do parágrafo acima talvez seja o que sustente a ideia de levar esse blog adiante e acreditar que, ao revelar histórias, eu mobilize pessoas e alcance mudanças. Enquanto isso, neste trajeto, a canção cantada com a voz embargada pelo choro ainda soa em meus ouvidos.

JornalismoMoradores de rua

Léo Barbosa • 22/03/2015


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Comments

  1. Soraya Saraiva 23/03/2015 - 00:12 Reply

    Adorei. Mais um texto emocionante.PARABENS

    • Léo Barbosa 23/03/2015 - 00:17 Reply

      Obrigado Sosô! <3

  2. Lílian Souza 23/03/2015 - 00:22 Reply

    Leo já vou me adiantar e pedir desculpas pois não serei nada poética, a única coisa que pensava a cada trecho do texto foi: pqp! rsrs
    Ps. Acredito eu que o blog está cumprindo o seu papel de confrontar, de instigar, de aproximar, de humanizar…
    #parabéns #pqpdenovo #hahaha
    Bjo… Lili

    • Léo Barbosa 23/03/2015 - 00:34 Reply

      Hahahaha fico feliz por isso. Ah, não precisa se poética … o espaço é pra isso! Bjo Li

  3. Vinte 23/03/2015 - 13:58 Reply

    Olá, obrigado por compartilhar suas histórias incríveis, que a cada leitura me emociono, torno-me mais compreensivo e humano. Não pare com este blog! Venho acompanhando tudo, você é foda… hahah

    • Léo Barbosa 23/03/2015 - 14:49 Reply

      Cara, muito obrigado! Receber esse feedback é sem dúvidas o gás para continuar.

  4. Iza 27/03/2015 - 04:23 Reply

    Esse não é mais um texto. Destroçada, impotência é diminutivo p traduzir minha posição.

    • Léo Barbosa 27/03/2015 - 14:01 Reply

      Iza, nem sei o que dizer. Seguimos tentando mudar! Abração

  5. Fátima Neves 24/04/2015 - 16:58 Reply

    Muito sensíveis seus textos. Acompanho o trabalho em Jardim Gramacho a pouco tempo, e vi q VC esteve lá. Daí segui para seu blog. Muito bom.
    Parabéns!

    • Léo Barbosa 26/04/2015 - 03:43 Reply

      Obrigado Fátima. Estive e lá e me apaixonei pelo povo. Além do Jd. Gramacho também estive no Complexo do Alemão. Segunda posto o primeiro texto. Abraço 🙂

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