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Vida e morte num instante

É difícil entender alguns enlaces da vida, ela parece se amarrar de maneira que nos deixa atônitos. O tempo passa e, cada dia, é um dia a menos. Exigi-se de nós destreza para que saibamos contar nossos dias, a fim de que não sejamos tolos em nossas escolhas. Sempre levando em conta que nosso mundo vai morrendo antes nós. Aqueles que faziam parte dele já não estão, e o que éramos com eles não podemos ser mais. Resta-nos a saudade e a criatividade para reinventar os dias.

No final do ano passado perdi um amigo, o João. Contei sua história no texto “Quando um por cento é o suficiente para viver”, e tenho acompanhado, de longe, o drama de sua mãe para superar a dor da perda. Hoje se completam 30 dias que ele se foi, e todos os dias aparece na minha timeline uma foto dele e uma homenagem dela. Hora ou outra, declarações de saudade e sobre a dor causada pela ausência do filho. Me parece que nas fotos dele ela encontra a esperança de ser de novo quem era com ele, nem que seja por um instante. O tempo fixado no retrato não traz só o sorriso do João, mas o ressuscita em seus dias de luto. O vazio vai tomando forma, a ferida cicatrizando, mas a marca será lembrada pra sempre. E assim, ele se faz presente todos os dias.

Outro amigo também se foi, seu nome era Munir. Quando o conheci pessoalmente ele já tinha dois anos de idade. Cheguei à rua em que ele morava em Beford Roxo (RJ), num sábado nublado pela manhã. Fui recebido por um forte abraço de respiração ofegante por ter corrido ao meu encontro juntamente com sua irmã, foi tudo tão sincero e carinhoso. Ali ele entrou no meu mundo e eu no dele.

Munir tinha um carrinho de supermercado, desses que encontramos em lojas infantis, coloridos e de encaixe. Carregava nele o que via pela frente, o que por vezes causava brigas entre ele e a irmã. O carrinho me chamou a atenção, me parecia que ali ele buscava meios de guardar o que a vida lhe havia tirado. Guiando seu meio de transporte tudo era dele, eram amigos inseparáveis. O brinquedo deu a ele o direito que as mazelas da sua infância tentaram roubar. Com ele, o pequeno construía seu mundo, e como era seu mundo, era do jeito que ele gostaria que fosse. Ali cabiam todos os seus desejos.

O garoto morreu dormindo por causa de um refluxo. Lembro que a notícia me deixou transtornado. Era apenas um menino, crianças não deviam morrer, dizia a mim mesmo. Joan Didion diz em seu livro “O ano do pensamento mágico” que: “quando somos confrontados com uma infelicidade repentina, percebemos que as circunstâncias dentro das quais o fato impensável aconteceu não têm nada de excepcional: (…) no meio da vida, estamos na morte”. Em instantes somos tomados pela dor da ausência. O que fazer?

Aprendi com essas histórias que as lembranças são o meio para nos reinventarmos no luto. Os que se foram permanecem vivos na memória e nos fazem recordar de quem éramos com eles. Desta forma, aquilo que desmoronou começa a ser reconstruído de outra maneira, com diferentes características, com toques daqueles que se foram, mas ficaram pra sempre em nós.

CriançasHistóriaJornalismoSuperaçãoVida

Léo Barbosa • 16/01/2015


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Comments

  1. thais teixeira monteiro 16/01/2015 - 01:19 Reply

    Muito tocante!…

    • Léo Barbosa 16/01/2015 - 01:55 Reply

      Muito obrigado Thais! =)

  2. Lílian Souza 03/03/2015 - 03:22 Reply

    Em meio a pensamentos e orações silenciosas vim aqui atras das palavras singelas da D. Lúcia,não as encontrei. E o primeiro texto que li foi esse. Um bonito e doloroso texto. Volto aos meus pensamentos e as orações, agora não tão silenciosas.

    • Léo Barbosa 03/03/2015 - 11:13 Reply

      Lílian, peço desculpa por ter publicado o texto ainda e prometo que está semana farei. Agradeço pela disposição em ler meus devaneios, haha, e espero sempre cooperar de alguma maneira. Forte abraço

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