Você é feminista
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Você é feminista, só não sabe disso ainda

Homens foram instigados a ficarem como leitores na semana passada e, ao invés de escreverem e publicarem textos sobre os direitos das mulheres e questões de gênero,  cederam espaço para que elas mandassem a letra. Eu sei que a semana passou, mas considero que toda hora é hora para iniciativas assim. Então, segue o texto da minha amiga Daniele Savietto, Mestre em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, sobre o tema dentro da ação #AgoraÉQueSãoElas.

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No dia 05 de novembro o novo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, anunciou os colaboradores de seu novo governo, um quadro com paridade de gênero, ou seja, uma divisão igualitária de 50% homens e 50% mulheres. Quando questionado do porquê de sua decisão respondeu simplesmente “Estamos em 2015!”

Para muitos isso soa estranho e questionam se, nos países ocidentais, ainda vivemos essa divisão entre homens e mulheres, afinal, é só olhar para lado que vemos mulheres dirigindo, comprando ou trabalhando. Então onde está o problema, por que insistem em criar “caso”?

Porque infelizmente vivemos um aparente ideal democrático que impede que vejamos as consequências sociais que o padrão de comportamento imposto socialmente deixou, e ignorância seria acreditar que resolvemos em 30 anos aquilo que foi construído nos últimos 2 mil anos.

Mesmo hoje em sociedades tidas como mais igualitárias, vê-se que os papéis e empregos destinados as mulheres estão ligados as funções que exerciam historicamente, responsáveis pela acolhida, se tornam recepcionistas, atendentes, cuidadoras, reproduzindo externamente suas funções domésticas. Além disso continuam sendo menos remuneradas que os homens ainda que exerçam cargos iguais, são mais afetadas pelo desemprego e mais atingidas pela precariedade.

Todo ser humano é uma construção, somos uma mistura das nossas heranças culturais e sociais, e só a partir delas nos configuramos como indivíduos, aprendemos a interagir e nos relacionar em sociedade, por isso, a maneira como olhamos e tratamos o outro é uma consequência de um conjunto histórico, social e cultural.

Foi só a partir de 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que fomos enquadradas como seres humanos, por incrível que pareça, nem durante as grandes filosofias desenvolvidas por Platão ou Sócrates as mulheres eram consideradas, ou ainda, durante a Revolução Francesa, nem teóricos como Rousseau, olhavam para as mulheres como iguais aos homens, a própria Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, foi escrita exclusivamente para o sexo masculino, a palavra “Homens” em seu título em nenhum momento pretendia se referir a raça humana.

Até a revolução feminista as mulheres não podiam votar, ter propriedades, documentos ou até um nome, afinal elas não passavam de uma propriedade adquirida em casamento ou um peso para família.

Mesmo após estas conquistas o direito da mulher ainda era muito inferior ao do homem, até 1988 a Constituição Brasileira carregava o termo “mulher honesta”, em que caso a mulher recorresse ao tribunal ou um crime fosse cometido contra ela, (como estupro), cabia avaliar se esta era honesta ou não. Havia alguns princípios para julgar a honestidade de tal mulher, entre eles ela não deveria estudar a noite por exemplo. Interessante é que não existia o termo “homem honesto” em nossa constituição.

Ou ainda, em 1982, durante a luta norte americana para incluir na legislação a condenação de estupro dentro do casamento, um senador solta as incríveis palavras: “Bem, se você não pode estuprar sua esposa, quem você pode estuprar?”.

Não há como escapar ou apagar a história, e ignorar suas consequências é no mínimo covardia. Numa sociedade formulada e herdeira de tais valores, as mulheres encontram-se inferiorizadas e com oportunidades reduzidas quando comparadas aos homens. Mesmo após anos de luta e conquistas tímidas, percebe-se que direitos legais foram reconhecidos, mas existe uma tradição fomentada durante gerações que impede que estes direitos encontrem nos costumes sua expressão concreta.

Precisamos do feminismo porque é este movimento, social e acadêmico, que lutou e luta para que inúmeras injustiças sejam corrigidas e as próximas gerações não vivam sob a opressão que ainda nos rodeia. É importante entender que o feminismo é ainda uma ação política, que conglomera prática e teoria onde as mulheres são sujeitos de transformação de sua condição social.

Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU Mulheres, afirma que nenhum país alcançou a igualdade entre homens e mulheres. As Nações Unidas estimam que uma em cada três mulheres sofrerá algum tipo de violência no decorrer de sua vida, que uma em cada três meninas se casará antes dos 18 anos, que 125 milhões de meninas e mulheres sofreram mutilação genital. Além disso, o tráfico de mulheres e meninas continua, além do estupro, (que possui como vítimas majoritariamente mulheres e crianças), o feminicídio (assassinato de mulheres simplesmente por serem mulheres) que apresenta números alarmantes.

A Organização Mundial da Saúde passou a considerar a violência contra a mulher epidemia global, realizou pioneiramente um estudo sistêmico com dados mundiais que deu origem ao relatório intitulado Estimativas mundiais e regionais da violência contra a mulher: prevalência e efeitos na saúde da violência doméstica e sexual em 2013, afirmando que mais de um terço de mulheres é vítima de violência física ou sexual, sendo a maior parte dos agressores um familiar ou pessoa próxima como um namorado.

Precisamos falar sobre feminismo, trazer luz sobre o assunto, levar as ruas, escolas e redes sociais. Precisamos abrir espaço para mulheres nas ruas, nas empresas e na mídia. Precisamos estranhar qualquer lugar, instituição ou cargos que sejam majoritariamente masculinos, desconstruir algumas verdades para que novas sejam construídas pautadas no respeito, na igualdade e verdadeira equidade.

Se você acredita que homens e mulheres nascem com os mesmos potenciais, capacidades e inteligência, dotados de habilidades que os permitem realizar qualquer tarefa indiscriminadamente, que uma mulher não deve sofrer qualquer tipo de violência apenas por ser mulher, que os homens não devem possuir maiores direitos e privilégios, parabéns, você é feminista, só não sabia disso ainda.

FeminismomulherMulheres

Léo Barbosa • 09/11/2015


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Comments

  1. Diene 09/11/2015 - 19:30 Reply

    Sou mesmo! Tava brigando com um colega de trabalho esses dias por causa do assunto em questão.

  2. Bastião 24/05/2017 - 14:42 Reply

    Acredito que tanto quanto o machismo o feminismo é imbuído de idéias preconceituosas contra o “homem”. Ser machista é errado, feminista também. Ora, não combatemos um mal com outro. O feminismo nada mais é que o antônimo de machismo, ou seja “ismo” do mesmo jeito. Há um tempo atrás perguntei para um homem porque ele aceitava ser agredido pela esposa, e ele me pegou de surpresa ao dizer que se ficasse um roxo nela ao segurá-la provavelmente ele seria preso, e seria mesmo. Lutemos por direitos iguais, não levantando uma força maléfica dizendo que assim combaterá outra força maléfica. Tudo farinha do mesmo saco.

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